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  Título
O Homem que virou suco e os traços do rosto “nordestino” em questão
Autor
Júlio César Alves da Luz
Resumo Expandido
A problematização de uma identidade expressa nos traços engessados de um rosto indiferenciadamente identificado como “nordestino” é o nosso ponto de partida para a leitura do filme O Homem que virou suco (1979), de João Batista de Andrade. Ao cruzar as histórias de dois homens, Deraldo e José Severino, em razão da confusão de seus rostos, a obra questiona a imagem historicamente cristalizada que os reduz às estereotipadas linhas de uma identidade vazia, aprisionada nos traços identitários que a classificam como a do “tipo nordestino”. Uma imagem homogeneizadora que o remete a um aglomerado indistinto, numa operação maquínica, conforme Deleuze e Guattari, que o captura para excluí-lo como rosto não-conforme que representa uma desviança racial em relação ao homem branco. Trata-se de um rosto reconhecido pela visibilidade alcançada no cinema e nas mídias, sob um ângulo, porém, em geral alienante, que o enquadra coadunando com os espaços explorados sob o duplo signo da miséria e da violência espetacularizada onde vive.

Contudo, na contracorrente dessa perspectiva despotencializadora do universo do outro, que o rebaixa ao qualquer um de uma massa indiferenciada, o personagem de O Homem que virou suco emerge e cresce no curso de sua trajetória como forte expressão da potência, conforme conceito agambeniano, de uma singularidade qualquer, isto é, o ser que não é nem individual, nem universal, que não apresenta nenhuma condição de pertença, que nada o encerra sob uma identidade pela propriedade compartilhada num conjunto. Imigrante que procura sobreviver na grande cidade, marginalizado, perseguido pela polícia por conta do equívoco da confusão de seu rosto com o de um operário homicida, o personagem afirma-se como figura de resistência no caminho desviante que realiza, numa perambulação que traça linhas de fuga. Deraldo expressa, assim, a figura de um solitário errante que escapa a todas as formas de opressão no caminho que percorre, que se rebela contra todas as forças que procuram assujeitá-lo, num movimento esquivo que escapa às capturas do poder.

Um homem ordinário na manifestação, em termos agambenianos, da ontológica potencialidade do ser qualquer, o personagem criado por João Batista representa a figura do nômade incapturável, que coloca em questão uma diferente forma de sociabilidade, a qual não se funda em nenhuma reivindicação identitária, que não remete a nenhuma condição de pertencimento. Personagem que desfaz, assim, os traços identitários que, sob as estratégias midiáticas de leitura, insistem em rebaixá-lo ao rosto qualquer nordestino, defrontando-nos, então, com um rosto singular, que o liberta daquele traçado rígido demais, que escapa ao contorno aprisionador de uma estereotipada imagem reproduzida.

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. A Comunidade que vem. Lisboa: Editorial Presença, 1993.



______. Mezzi senza fine: note sulla politica. Torino: Bollati Boringhieri, 2005.



DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Ano zero – rostidade. In: Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 3. Tradução de: OLIVEIRA, Ana Lúcia de; LEÃO, Lúcia Cláudia. São Paulo: Editora 34, 2007.