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  Título
Documentário científico: campos de correlação e gesto estético-polític
Autor
Luiz Augusto Coimbra de Rezende Filho
Resumo Expandido
Esta comunicação pretende desenvolver uma reflexão metodológica sobre a análise de documentários científicos, simultaneamente compreendidos como documentos históricos e gestos estéticos-políticos endereçados a um espectador. Esses filmes têm algo de específico a dizer sobre a história: ao mesmo tempo em que são um tipo particular de documento, se comparados com fontes textuais orais e escritas, devem também ser reconhecidos como instrumentos do poder que os criou e que os conserva em meio a processos de montagem e remontagem da história (LE GOFF, 1990).

Parto da ideia segundo a qual documentários científicos têm simultaneamente uma dimensão representativa e uma dimensão comunicativa. Por um lado, é certo que os documentários científicos são reconstruções de fenômenos ou modelos científicos. Por outro, têm também uma intencionalidade comunicativa, um objetivo de comunicação, um espectador imaginado a quem se endereça uma obra esteticamente organizada. Há uma tensão entre essas dimensões. Se a análise enfatiza a dimensão representativa, terão relevo questões relativas à adequação, veracidade, exatidão do que é apresentado/representado, como as opções estéticas são orientadas por este projeto de “adequação”. Se a análise enfatiza a dimensão comunicativa, verá questões que tocam o modo como o espectador é endereçado, o que se quer a ele dizer, como as opções estéticas são orientadas por um desejo de comunicar e se fazer entender a determinado público.

Uma questão para o analista, para o produtor e para o espectador é formada, então, pela tensão que a dinâmica entre estas duas dimensões produz: o que está representado e como se deseja/pode/deve comunicar. Minha hipótese é que no documentário científico (ou de “divulgação” científica) essa tensão se apresenta de forma particular. A compreensão da relação entre o caráter representativo e o comunicativo dos filmes tem por objetivo contribuir para mostrar que determinados elementos que os filmes contêm, e que podiam não estar ainda visíveis no momento em que foram produzidos, podem tornar-se relevantes para a remontagem da história, quando analisados em outra época (FERRO, 1992). Eles permitem algum nível de acesso, por exemplo, às tentativas de persuadir o público da importância da ciência, da tecnologia e da medicina (BOON, 2008). Assim, mesmo obras que se caracterizem (como “Combate à lepra no Brasil”) como artefatos de propaganda e divulgação de ações governamentais podem ser fontes para a história da ciência, pois testemunham sobre um determinado “estado” do conhecimento e/ou sobre as relações deste com a sociedade e as políticas públicas. Essa compreensão encontra ecos na ideia segundo a qual toda imagem (documental) guarda uma dinâmica, um movimento, um “ato” que pode ser explorado em múltiplas camadas, sentidos e temporalidades (COMOLLI, 2008).

Para identificar e analisar as dimensões representativa e comunicativa em documentários científicos, e a natureza das relações entre ambas, pretendo recorrer a autores como o historiador da arte Erwin Panofsky e o filósofo Michel Foucault. Panofsky, ao apontar três níveis de análise de obras imagéticas (pré-iconográfico, iconográfico e iconológico), nos indica um caminho para entender e analisar a imbricação entre as formas de representação e os objetivos de comunicação (“fazer-se entender”) do artista. Foucault, em sua Arqueologia, nos oferece diversos conceitos que podem iluminar esse tipo de pesquisa. Entre eles o conceito de campo correlacional. Um campo de correlações é o conjunto de relações exteriores estabelecido por uma imagem, um documento ou um arquivo no momento de sua produção. Um campo correlacional tem a ver com as características formais, temáticas, históricas, estéticas do documento, mas também com o gesto que o criou e, portanto, não se reduz ao referente, ao seu tema, objeto ou conteúdo. Pretendo desenvolver uma reflexão metodológica sobre a aplicação destes conceitos à análise de filmes científicos históricos.
Bibliografia

BOON, T. Films of facts: a history of science in documentary films and television. Londres: Wallflower, 2008.

COMOLLI, J-L. “Mauvaises Frequentations”, in Images documentaires, n. 63, Regard sur les archives. Paris: 2008.

DIDI-HUBERMAN, G. Images malgré tout. Paris: Les Editions de Minuit, 2003.

FERRO, M. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

FOUCAULT, M. A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

GOMBRICH, E. H. Arte e Ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

LE GOFF, J. Documento/Monumento, in História e memória. Campinas: Unicamp, 1990.

PANOFSKY, E. Significado nas Artes Visuais. São Paulo: Perspectiva, 1991.

RANCIÈRE, J. The Future of the Image. Nova York: Verso, 2007.

VAN DIJCK, J. Picturizing science: The science documentary as multimedia spectacle. International Journal of Cultural Studies, vol. 9, n. 5, 2006.