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  Título
Interação no webdoc: o lugar do espectador na narrativa digital
Autor
Tatiana Levin Lopes da Silva
Resumo Expandido
Este artigo tem como proposta compreender o espaço de fruição proporcionado pelos documentários feitos para serem experienciados on-line na web, os webdocumentários ou webdocs. Nossa perspectiva situa-se dentro de um mapeamento das possibilidades de interação proporcionadas pelo produto. Temos como premissa a ideia de que o webdoc estabelece uma nova ordem de representação documentária constituindo assim um movimento de inovação do gênero. Embora outras mudanças tecnológicas tenham contribuído para redefinições do que é aceito institucionalmente como documentário (cinema direto e verdade nos anos 1960, por exemplo), a inovação trazida pelo webdoc é de outra ordem, pois promove uma experiência de fruição interativa até então inédita em um produto incorporado a este campo. Pressupomos que existe uma estratégia de inovação neste produto atrelada ao aproveitamento das possibilidades da web e que para tanto, o produtor precisa planejar a experiência de fruição de forma a solicitar a participação do espectador nas escolhas narrativas e de envolvimento com o produto.



O webdoc é um produto presente na indústria audiovisual há menos de 10 anos, tendo surgido incentivado por produtores e fomentadores conhecidos no campo do documentário, tais como o multimidiático canal franco-alemão ARTE e o órgão governamental National Film Board of Canada (NFB). Instâncias de consagração também tradicionais neste campo têm oferecido espaço para a premiação de webdocs, caso do International Documentary Film Festival (IDFA) que desde 2010 concede prêmio às narrativas digitais documentais mais criativas e competentes na utilização da tecnologia digital. Nosso campo observação está situado nos produtos derivados das três instâncias citadas, entendendo-se a premiação anual do IDFA como polo norteador do que é considerado inovador no próprio campo do documentário. O que observamos é que os webdocs do ARTE e do NFB figuram frequentemente na lista dos melhores, no sentido de serem mais inovadores. Propomos portanto mapear as inovações nos documentários vencedores de edições variadas do IDFA, de forma a contrapor com o nosso pressuposto de que ser genuinamente interativo é fundamental para ser um webdoc. O próprio conceito de interação será trabalhado neste artigo como conceito-chave.



A partir da observação de webdocs presentes nas três instâncias referidas e de um mapeamento geral das características de alguns produtos, podemos desde já inferir que o documentário feito para a web é um documentário interativo que dispõe a narrativa de forma não linear e com elementos de hipertexto na página da web que o abriga. Sua composição é múltipla e diversificada, e os diversos percursos a serem experienciados on-line são apresentados de forma não hierarquizada. É também um produto composto de vários outros produtos. Um filme pode estar atrelado a um projeto feito também de blog, mapas, textos informativos e experimentos em andamento colaborativos ou não. Suas narrativas oferecem percursos diversificados sendo compostas de pequenas histórias a serem constantemente reordenadas e ligadas, de forma que um mesmo webdoc pode ser assistido e explorado diversas vezes a partir de tópicos como "personagem", "tema" ou "ponto geográfico", por exemplo. A participação do espectador pode ser solicitada ainda em comentários ou num convite a fazer parte do projeto enviando materiais pessoais. Sua identidade virtual sediada em redes sociais como o Facebook ou o Twitter pode ser acionada permitindo outros recursos.

Bibliografia

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ARTE Webproductions.

IDFA Doclab.

NFB Interactive.