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  Título
ROGÉRIO SGANZERLA SOB O SIGNO DO PLANO-SEQUÊNCIA
Autor
Leonardo Esteves
Resumo Expandido
Fundada em 1970, pelos cineastas Rogério Sganzerla e Julio Bressane, com significativa colaboração da atriz Helena Ignez, a Belair filmes produziu longas-metragens em poucos meses (os números que são geralmente atribuídos à filmografia e duração da produtora variam). Referente à participação específica de Sganzerla na Belair, foram produzidos três filmes durante o período: Carnaval na lama, Copacabana mon amour e Sem essa Aranha. Dessas três obras, apenas as duas últimas possibilitam hoje uma reflexão, pois se encontram disponíveis para visionamento em suas últimas versões (os filmes foram reeditados pelo cineasta ao longo do tempo). E é sobre essas duas obras que esse trabalho pretende se debruçar.



Tendo produzido anteriormente dois filmes de longa-metragem em preto e branco (O bandido da luz vermelha e A mulher de todos – nesse empregou criativamente sucessivas viragens na finalização, dando um “falso colorido” ao filme), na Belair Sganzerla filma em cores pela primeira vez. E nestes dois filmes, Copacabana mon amour e Sem essa Aranha, rodados em 35mm e 16mm, respectivamente, há o emprego progressivo do plano-sequência. A radicalização se dará na última produção do diretor nessa empreitada, rodada na bitola 16mm, onde o chassis da câmera permite um maior tempo de duração para cada take.



Uma dramaturgia toda pensada em cima de planos longos e planos-sequências é uma característica do cinema de Sganzerla que remete especialmente à parte de sua obra filmada na Belair. Sendo a Belair em si uma iniciativa voltada para a pesquisa (que vai desde o nome, um carro ícone dos anos 50, até o emprego de músicas e atores de outras épocas, flertando abertamente com as chanchadas e gêneros), esse trabalho pretende inserir o uso do plano-sequência dentro dessa perspectiva da pesquisa. Nesse sentido, planeja-se pensar relações com outras iniciativas, como o caso da Transatlantic Pictures. Fundada no final dos anos 40 pelo diretor Alfred Hitchcock e seu amigo Sidney Bernstein, a produtora e sua importância na carreira de Hitchcock são muito pouco comentadas. A companhia, cujo escritório se encontrava nas adjacências do bairro hollywoodiano Bel Air, gerou apenas dos filmes: Festim diabólico (1948) e Sob o signo de capricórnio (1949).



A experiência da Transatlantic (e especialmente as opções de Hitchcock) é muito parecida com a da Belair – especificamente pela parte de Sganzerla. Como Hitchcock, Rogério trabalhou com produtores em sua obra pregressa. Como o diretor inglês, fundou uma produtora com um amigo, onde passou a produzir seus filmes. Nessas produtoras, os dois cineastas filmaram em cores pela primeira vez. E esses filmes rodados naqueles momentos empregaram radicalmente em suas narrativas o mesmo recurso estético: o plano-sequência.



Ainda na pesquisa sobre a influência do plano-sequência no cinema produzido por Sganzerla na Belair, outro nome se impõe naturalmente, o de Orson Welles. O cineasta americano foi também referência no uso do plano-sequência, onde sua grande contribuição, como na abertura de A marca da maldade (1958), permitiu uma ampliação desse recurso em outras filmografias, como no caso, a de Rogério Sganzerla.



Aquele momento em que Sganzerla explorou fartamente o uso do plano-sequência e nunca mais repetiu em seus filmes posteriores, também é pouco visado em trabalhos acadêmicos, que empenharam muito de seus estudos à obra pregressa do cineasta. Rogério Sganzerla sob o signo do plano-sequência é inspirado em parte da dissertação de mestrado apresentada por este autor, Belair: faces de um sonho experimental de indústria cinematográfica, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, EBA-UFRJ em abril de 2012.

Bibliografia

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