/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Eu e o documentário: formas contemporâneas de autorrepresentação
Autor
Maria Ines Dieuzeide Santos Souza
Resumo Expandido
Pensamos no documentário como um espaço importante na constituição do imaginário social, e que permite diversas formas de expressão, que precisam ser pensadas e discutidas. Entre todas as possibilidades e modos de fazer, nos interessam principalmente as obras que fazem da autorrepresentação sua concepção criativa e comunicativa, usando o documentário como espaço de reflexão, mais que de apresentação do mundo. Além disso, são obras que aparecem questionando o próprio meio em que estão inseridas, transgredindo alguns costumes já estabelecidos e apreendidos pelo público como característicos da não-ficção. Assim, é por meio da análise do filme La televisión y yo, de Andrés Di Tella (Argentina, 2003), que tentamos compreender as maneiras como o documentarista pode transformar a história pessoal em uma reflexão sobre o mundo ao qual pertencemos.

Num contexto em que o lugar do conhecimento é posto em xeque, e as explicações totalizantes dificilmente são aceitas, o que se propõe são outras formas de aproximação com os temas investigados, a partir de experiências individuais. O documentário que preza pelo autobiográfico complexifica o conhecimento, enfatizando sua dimensão histórica e afetiva, tentando aproximar o pessoal do político ao construir sentidos para suas experiências, universalizando histórias particulares. A hipótese é que esse tipo de documentário é uma tentativa de representar subjetividades sociais, ancoradas em sujeitos específicos, mas que podem ser estendidas a uma comunidade. São filmes que muitas vezes tratam da reconstrução de um passado e dos problemas da memória, mas que trazem a possibilidade da reflexão sobre o presente. Como em toda prática cinematográfica, não existe uma receita pronta, e alguns filmes sempre podem cair na sedução do exibicionismo, mas o uso da primeira pessoa possibilitou o surgimento de obras interessantes e inovadoras, e é uma dessas tentativas que pretendemos analisar aqui.

La Televisión y Yo é todo narrado em primeira pessoa, e revela um fracasso: o filme não é o que deveria ter sido. Este é um documentário que começa com um fracasso, e vai se transformando em uma reflexão – ou um ensaio – sobre a história de um país, de impérios, de desmoronamentos, sobre a história do próprio diretor, e do gesto mesmo do fazer documental. Andrés Di Tella não se preocupa em resolver grandes problemas universais, mas levanta questões que fazem parte da história de todo um povo. A busca por um passado que ele não viveu traz à tona problemas da identidade, da memória, da formação de um país.

Neste filme, não há nenhuma palavra de ordem claramente delineada, e sim uma tentativa de estimular a sensibilidade do espectador. Acabamos nos envolvendo em sua representação do mundo histórico de maneira indireta, intermediados pela carga afetiva que o cineasta coloca no filme. Consuelo Lins (2004) pensa inclusive que esse pode ser um novo tipo de cinema político, que extrai dos sofrimentos particulares o que deve ser compartilhado para a formação de uma memória comum, mas sem se ater a uma mensagem que precisa ser transmitida, ou de representar um “sujeito iluminado” que vai guiar os espectadores alienados.

Esse relato personalizado se aproximaria da figura do narrador como definida por Walter Benjamin. Para ele, “o narrador colhe o que narra na experiência, própria ou relatada. E transforma isso outra vez em experiência dos que ouvem sua história” (BENJAMIN, 1980: 60). Assim, os documentaristas se afastariam de uma tradição baseada na distância em relação ao tema tratado para imergirem nos relatos. Como a preocupação é a transmissão de experiências, o documentarista-narrador também pode apresentar e encadear os eventos não de uma maneira precisa, mas de modo a enquadrá-los em sua lógica, em suas sensações, parte da sua vida. E nesse relato é muito importante a lembrança. É a memória que reconstrói e faz as pontes entre as múltiplas histórias.
Bibliografia

BENJAMIN, W. O narrador. In: Textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 57-74. FIRBAS, P.; MONTEIRO, P. M. Andrés Di Tella: cine documental y archivo personal. Buenos Aires: Siglo XXI Editora Iberoamericana; Princeton: Universidad de Princeton, 2006.

JAMESON, F. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. 2. ed. São Paulo: Ática, 2004.

LINS, C. Um passaporte húngaro, de Sandra Kogut: cinema político e intimidade. Galáxia. São Paulo: EDUC; Brasília: CNPq, n. 7, p. 75-84. 2004.

NICHOLS, B. Introdução ao documentário. 2. ed. Campinas: Papirus, 2007.

______. Blurred boundaries: questions of meaning in contemporary culture. Bloomington: Indiana University Press, 1994.

NINEY, François. La prueba de lo real en la pantalla: ensayo sobre el principio de realidad documental. Cidade do México: Universidad Nacional Autónoma de México, 2009.

RENOV, Michael. The subject of documentary. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004.