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  Título
A sobrevivência das imagens da intimidade
Autor
Candida Maria Monteiro
Resumo Expandido
Fotos e filmes de família trazem de volta entes queridos que já não estão entre nós. Filmes domésticos ressuscitam festas e encontros familiares, brincadeiras das crianças e o vestuário das pessoas, mas acima de tudo, retoma o modo como as famílias seguem as regras sociais de seu tempo histórico. Além da memória afetiva, as imagens da vida privada revelam hábitos e costumes de uma época.



A sobrevivência das imagens de arquivos particulares se deve a um aspecto no mínimo curioso, que vem a constituir o seu traço mais marcante, conforme identificou Roger Odin: a estética do “mal feito”. São filmes tremidos, sem continuidade e foco e com enquadramentos inusitados. Sua narrativa fragmentada também não passa pela organização e discurso da montagem. Numa análise convencional, num primeiro olhar, tal “precariedade” poderia destituir o valor das produções domésticas, porém, é exatamente por serem “mal feitos” que esses registros ganham potencia e sobrevivem.



Seria enfadonho para o espectador que não está envolvido pelos laços familiares assistir a um filme doméstico. Seu público é especificamente aquele que também protagoniza a história; que tem um conhecimento prévio do universo retratado e que durante a exibição pode completar as lacunas da narrativa. Assim, como argumenta Odin, quanto menos coerente, maior será a contribuição do material doméstico para o exercício da memória coletiva. Se o filme é menos elaborado, menor o risco de entrar em conflito com a memória daqueles que participaram dele. Desta forma, o fato dos filmes ficarem em aberto permite aos familiares trabalharem juntos a reconstituição da história do grupo, fortalecendo a coesão e identidade do núcleo.



Também do ponto de vista do pesquisador, os filmes de família são interessantes justamente por não terem uma estrutura coerente. Os “defeitos” e as “mentiras” representadas nessas imagens podem revelar muito mais a respeito da instituição familiar. É possível encontrar nas imagens erráticas, no enquadramento ou no corte das silhuetas um sentido para a crônica familiar. Considerando que a estética doméstica é pautada por uma visualidade estabelecida pela cultura da mídia, onde a televisão se destaca como formadora de um padrão a ser seguido, os “erros” são reveladores, denunciando o que está por traz das imagens não programadas.



Com uma inserção no experimentalismo, os filmes realizados por cineastas como Jonas Mekas, Robert Frank, Chris Marker - uma geração que surge a partir do movimento que se convencionou chamar de New American Cinema, pós Cinema Direto e vérité, vão encontrar na estética “mal acabada” do filme famíliar uma forma de marcar posição contrária ao documentário clássico.



Assim, a precariedade do filme de família vai garantir a re-significação das imagens em três âmbitos: no seio da própria família, ao permitir a recriação mítica do passado vivido; no campo da pesquisa, ao oferecer um material que reflete a complexidade da cultura e da vida social por trás de representações idealizadas; e na produção documental de uma avant-garde, constituída por realizadores experimentais em busca de novas linguagens, temáticas e formas representativas a partir dos anos 1960.



Concluindo, as imagens da vida privada sobrevivem com força e significação. Não somente porque realizam uma arqueologia da intimidade familiar, mas sobretudo, por serem fonte geradora de um conhecimento que se abre para um manancial de sentidos da contemporaneidade.



Bibliografia

CUEVAS, Efrén. Diálogo entre el documental y la vanguardia en clave autobiográfiva. In: TOREIRO, Casimiro e CERDÁN, Josetxo. Documental y vanguardia. Madrid: Cátedra, 2005.

ODIN, Roger. El cine doméstico en la instituición familiar. In: CUEVAS, Efrén. La casa abierta. Mardid: Ocho y Medio, Libros de Cine, 2010.

ORTEGA, María Luisa. Las modulaciones del yo en el documental contempoáreno. In: GUTIÉRREZ, Gregório Martín. Cineastas frente al espejo. Madrid: T&B Editores, 2008.