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  Título
Estrellas da pobreza: o cinema como representação.
Autor
Yana Santos Kaufmann
Resumo Expandido
Em uma favela de Buenos Aires, Julio Arrieta fundou um grupo de teatro na década de 90. Aos poucos, Julio se tornou o empresário dos atores que moram na Villa 21, agenciando modelos para fotografias, participações em comerciais, realizando seus próprios filmes, e oferecendo locações para produções externas dentro da comunidade. Estes são os personagens e o enredo do documentário Estrellas de Marcos Martínez e Federico León (Argentina, 2007). O filme incorpora em seu discurso a consciência da existência dos clichês “do que é ser pobre”, e “de como os pobres devem agir” para reivindicar o direito da possibilidade e liberdade de criação de seus próprios imaginários e subjetividades. Para Ivana Bentes (2010), os que estão à margem passaram hoje de objeto a sujeitos do discurso. Significa pensar que estes novos sujeitos lutam agora para produzir e (com) partilhar algo da esfera do sensível, algo que diz respeito à formulação e circulação de sua própria imagem. O protagonista do filme argentino parece estar consciente de sua condição e de que é capaz de modificar e mesmo disputar imaginários circundantes e reordenar partilhas sociais dadas de que fala Jacques Rancière (2009). Revelando um grupo de artistas que desejam sair do lugar comum designado aos pobres "favelados", o filme se distancia dos discursos preconceituosos da mídia de massa. Com ironia e sarcasmo, Estrellas aponta para um novo momento político e estético, relacionado com os novos meios de produção, circulação e distribuição de imagem.

Outro fator nos chama a atenção no próprio formato e linguagem da obra: a incerteza de seu estatuto. Classificado como documentário, o filme argentino parece brincar com as convenções daquilo que seria ora documental, ora ficcional. E talvez isso o fortaleça ainda mais, se pensarmos no que propõem Comolli (2008) e Andréa França (2008) acerca da crença/descrença do espectador.



Deslocando Estrellas para o contexto do cinema brasileiro, identificamos um possível diálogo do filme com os discursos de vitimização, demonização e os estereótipos da pobreza. Pretendemos explorar esse diálogo a partir da análise dos filmes 5x Favela - Agora por nós mesmos (Brasil, 2010) e 5x Pacificação (Brasil, 2012). Em algumas favelas cariocas, o produtor Cacá Diegues ofereceu oficinas audiovisuais para jovens moradores. Depois das oficinas, alguns foram selecionados para fazer parte do projeto 5x Favela, escrevendo, dirigindo e atuando nos cinco episódios que compõe o longa. Seria uma situação semelhante a dos moradores da Villa 21: atores, diretores e roteiristas não profissionais tem a possibilidade de criar suas próprias obras cinematográficas, de falar sobre si mesmos, de inventar mundos e realidades que não foram pré-estipulados. Apesar de 5x Favela ter sido "vendido" como uma novidade, como um novo ponto de vista, sendo atestado com uma espécie de selo de autenticidade por ter vindo de "dentro" da favela, acaba ressoando os discursos midiáticos que reforçam os estereótipos sobre a "margem". Nichols (1997) atenta para esta marca do autêntico quando fala do discurso de sobriedade.



Se na Argentina, as favelas passaram a ganhar visibilidade no cinema como consequência à crise econômica de 2001 (AGUILAR, Disponível em: http://oinstituto.org.br/?page_id=1463), no Brasil essa história é um pouco diferente, pois as “margens” sempre foram protagonistas de filmes de ficção e de documentários. Destacamos o período do Cinema Novo, que nas décadas de 50 e 60 elegeu os sertões e favelas brasileiros, e consequentemente os “pobres” como principal temática, e o cinema da década de 2000, que exportou filmes de ação estrelados por atores não profissionais ambientados em favelas cariocas, para refletir também sobre a relação violência/favela/lucro. Temos como objetivo pensar esse movimento onde as favelas ensejam invenções materiais e subjetivas através do audiovisual, e identificar os diálogos e aproximações entre os filmes citados.

Bibliografia

AGUILAR, Gonzalo. As favelas no cinema argentino: um elefante oculto atrás do vidro. Disponível em: http://oinstituto.org.br/?page_id=1463

BENTES, Ivana. Deslocamentos subjetivos e reservas de mundo. Trabalho apresentado na Compós, 2010. Disponível em: http://compos.com.puc-rio.br/media/gt10_ivana_bentes.pdf

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder – A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

FRANÇA, Andréa. O cinema, seu duplo e o tribunal em cena. Revista Famecos, n. 36. Porto Alegre, 2008. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/viewFile/4420/3320

NICHOLS, Bill. El dominio del documental. In: La representación de la realidade. NICHOLS, Bill. Barcelona: Ed. Paidós, 1997.

SOUZA, Gustavo. Cultura, política e cotidiano: pilares de sustentação de um cinema periférico. E-Compós, v.12, n. 2. Brasília, maio/ago 2009. Disponível em: http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/view/402/362