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  Título
Angel on my Shoulder : hierofania, transcendência ou profanação ?
Autor
Angeluccia Bernardes Habert
Resumo Expandido
No Cinema, o inferno tem sido usado mais metaforicamente do que de forma realista, o espaço físico concebido na tradição medieval perde a sua credibilidade. O homem moderno , gradualmente, desqualificou a pedagogia do castigo eterno e o seu intento de conduzir o crente no cumprimento da Lei e na observância das virtudes. Eliminou da sua prática cotidiana a questão do mal moral (religioso- moral) , ou seja, do pecado - "o mal concebido como um alheamento de Deus, portanto do bem".

A representação da geografia subterrânea , mesmo como lugar narrativo, fica submetida a reflexão destes homens " perplexos" . Sendo eles, realizadores e espectadores que vacilam entre a construção de uma realidade narrativa e o distanciamento provocado pela razão transformada pela descrença. As tentativas recentes têm exemplos na filmografia de Fellini e Woody Allen , que trazem a descrição do inferno em sonhos e pesadelos , como resultados do inconsciente perturbado por uma doutrinação castradora e autoritária. Criam situações e condições que incomodam, ilustram quase sempre a frase "o inferno são os outros" e, seguidamente , têm suporte na interpretação da psicanálise .

Existem inúmeros outros tesouros guardados do Cinema . Agora, todos disponíveis na internet e com acesso instantâneo . Entre eles , os filmes da época de ouro do cinema americano que permanecem, vencem a obsolescência comercial e ultrapassam o seu tempo. Naturalmente, toda transcendência tem sua causa na medida que os filmes potencializam significados e vão além de si mesmos , produzindo novas interpretações.

Será objeto desta comunicação uma vista em "Angel on my Shoulder", 1946 , dirigido por Archie Mayo ( que começou a dirigir filmes em 1917), e escrito por Harry Segall (autor do roteiro de " Here Comes Mr. Jordan", 1941 e da peça "Heaven Can Wait"). No filme, o diabo envia um gangster assassinado de volta para a vida no corpo de um respeitado juiz. O homem é rude, obstinado e busca ultrapassar os limites da morte, o diabo é sutil, manipulador e " tem todo conhecimento do mundo ". Fizeram eles um pacto e o homem consegue , inadvertidamente e em meio a surpresas, desmoralizar o diabo, porém não vence a morte . Deve ser dada menção ao momento que o morto e diabo interferem na vida cotidiana, a partir do ascensor dos trabalhadores do metro. A irrupção do subterrâneo ocorre com naturalidade , quase no sentido de tratar as coisas sérias com "estudada e sincera trivialidade", filosofia prevista por Oscar Wilde, em 1895. Registra o filme um saboroso embate entre Paul Muni (" Scarface" 1932) e Claude Rains( " Here Comes Mr. Jordan",1941 ), dialogando com seus personagens anteriores. O roteiro subverte a tradição de Fausto, o principal tema do imaginário ocidental, e permite um " link" para a estória de Stephen Vincent Benet, The Devil and Daniel Webster.
Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Profanações . São Paulo: Boitempo, 2007

ALIGHIERI, D. A Divina Comédia: Inferno. São Paulo: Editora 34, 2008.

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CAILLOIS, Roger. O homem e o sagrado. Lisboa: Edições 70, 1988

ELIADE, Mircea. Sagrado e Profano. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

LE GOFF, J. As Raízes medievais da Europa. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2007.

MINOIS, Georges. História de los infiernos. Barcelona: Paidós, 2005.

SARTRE, Jean-Paul. Entre quatro paredes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011p