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  Título
O Homem que Perdeu a Sombra: Um Pacto Demoníaco do Conto para a TV
Autor
Adriano Carvalho Araújo e Sousa
Resumo Expandido
L’Homme qui a perdu son ombre é considerado como uma tradução no sentido de tentar recriar as principais questões de um correlato fáustico, o conto de Adelbert Von Chamisso. Procura traduzir “sua fisicalidade, sua materialidade mesma [...] propriedades sonoras [e] de imagética visual” (CAMPOS, 1992), ou seja, os elementos que fazem a complexidade do original para além do entrecho.

No conto, Peter Schlemihl conhece o homem em traje cinza, este lhe oferece a bolsa de Fortunatus, bolsa que contém dinheiro inextinguível, em troca de sua sombra. O protagonista logo descobre as desvantagens dessa privação e, após recusar uma oferta do mesmo homem enigmático para reaver a sombra em troca de sua alma, passa a vagar pelo mundo em busca de paz de espírito: travessia de quem carrega consigo, a exemplo do Judeu Errante, citado no conto de Chamisso (1992, p. 17), a maldição através dos tempos, em uma reverberação de Ahasverus (PIRES FERREIRA: 2000).

Schlemihl vem do iídiche e significa alguém completamente desajeitado, incompetente. Elizabeth Frenzel (1976, p 429) lembra que “não apenas deu ao tipo do torpe desgraçado, tão frequente em literatura, um nome de grande efeito ao designá-lo com o judaico ‘Schlemihl’, mas, acima de tudo, o inseriu em uma fábula que convertia o desgraçado em culpado”.

Além do aspecto de danação, o filme converte o arquétipo literário da perda da sombra em uma imagem de um pacto demoníaco, pois a perda impede o encontro do sujeito consigo próprio (JUNG: 2011, p. 30). Schlemihl fica sem o que faz a grandeza e a força de todo ser humano, espécie de caráter fáustico de destruição e engenho (idem, p. 254). Cravenne oferece também a remissão ao aspecto alquímico de uma produção artificial de dinheiro intimamente ligada ao Fausto de Goethe, de um fascínio por possibilidades aparentemente mágicas, inexplicáveis pelo esforço humano (BINSWANGER, 2011).

Do ponto de vista da linguagem, Cravenne dialoga com o cinema e o folhetim. O conto é uma narrativa tenebrosa, de uma “oposição brusca, quase patológica, entre a delicadeza silfídica dessa parte da produção de Chamisso e, pelo outro lado, uma busca verdadeira por temas violentos, até mesmo macabros” (MANN: 2003, p. 141-142). O telefilme se insere nesse “tecido fáustico [...] que funciona à maneira de hipertexto [...] criando articulações” (PIRES FERREIRA, 2010, p. 313) com a figura de um protagonista interpretado por um ator cômico e numa série voltada para o público jovem. A análise incide sobre essa produção de expectativa. Cravenne trabalha uma mobilização do espectador sem ignorar os gêneros literários em questão (o conto, o folhetim), desde a escolha dos atores, até o trabalho com os planos e a apresentação de imagens como o teatro de sombras.

Bibliografia

BINSWANGER, Hans Christoph. Dinheiro e Magia. Prefácio de Gustavo Franco. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem e Outras Metas. 4ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.

CHAMISSO, Adelbert Von. L’Étrange histoire de Peter Schlemihl. Paris: Folio, 1992.

______. A História Maravilhosa de Peter Schlemihl. 2 ed. Posfácio de Thomas Mann. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.

FRENZEL, Elizabeth. Diccionario de Argumentos de Literatura. Madrid: Gredos, 1976.

JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 7ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

MEYER, Marlyse. Folhetim: Uma História. São Paulo: Cia das Letras, 1996.

PIRES FERREIRA, Jerusa. Fausto no Horizonte. São Paulo: Hucitec / Educ, 1996.

______. Fausto no Horizonte Latino-americano. In: GALLE, Helmut; MAZZARI, Marcus (orgs.). Fausto e a América Latina. São Paulo: Humanitas / Fapesp, 2010.

______. O Judeu Errante: A Materialidade da Lenda. Olhar, a. 2, n. 3, jun. 2000.