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  Título
O Van Gogh de Alain Resnais e a pesquisa em arte contemporânea.
Autor
Juliana Froehlich
Resumo Expandido
No que diz respeito ao estudo da arte é necessário considerar que ao tecermos reflexões sobre obra e artista carecemos de sua presença. A contemplação concreta das obras dificilmente será substituída por um texto ou por suas imagens. Contudo, seria possível inventar formas de compartilhar a experiência sensível do encontro com a obra e com o artista a partir de narrativas e de imagens?

Para os pesquisadores e críticos que elegem como objeto uma obra e uma vida pulsante, e que se preocupam em considerar o produtor de obras visuais, é preciso ponderar as formas de abordá-los ou de trair uma obra em vida (BAZIN, 1991, p.172). Neste sentido, no curta Van Gogh (1948), Alain Resnais parece ter resolvido a forma ou deixou como legado um possível procedimento, capaz de enfatizar o narrar de uma vida a partir da obra e não o oposto. Pois, consideramos que o sentido da obra de um artista não pode ser determinado por sua vida psíquica. (MERLEAU-PONTY, 2004, p. 125).

As pinturas de Vincent van Gogh são recortadas e remontadas por Resnais com vista a relacionar à uma vida, mas uma vida narrada socialmente. Isto porque, ao escolher o ponto de vista social de um van Gogh louco, Alain Resnais opera a câmera, os quadros e a montagem na direção de destacar a loucura do artista, construindo uma “cinematização” (AUMONT, 2011, p. 110) do pintor e suas obras. E apesar de vida e obra colarem-se na montagem do curta, uma não explica a outra, pois van Gogh não pintava porque era louco.

“Consciência formulada da loucura, mas não loucura expressa: a loucura não está dentro da obra, está à volta, num contato como que epidérmico, prestes a submergi-la: [...]” (COLI, 2006, p.129). Isto é, apesar de assumir a loucura de van Gogh, as pinturas são dadas a ver no filme; é possível acessá-las além da voz off que narra uma vida. E ver “que a loucura está à sua volta”.

O pintor buscava na pintura um trabalho e uma forma de ver um mundo, pretendendo que fossem compartilhados. As cores e a matéria (tinta), eram-lhe imprescindíveis para dar visão à matéria de seu mundo que se desfazia; matéria essa subvertida por Alain Resnais em espaço.

Assim, o curta trai van Gogh pintor em favor do van Gogh louco; a cor em favor do espaço. Contudo, é justamente nessa criação a partir do trabalho do artista, que aparece a pintura de van Gogh enquanto obra a ser vista, apesar de qualquer narrativa que se possa fazer sobre ela. Pois apresenta-se por si mesma em sua “cinematização”, possibilitando ao espectador do filme compartilhar o mundo visto por van Gogh. Desse modo, ao se aproveitar da obra e da história contada sobre um artista, o que resta a Alain Resnais são as imagens a serem conectadas.

Ora, o que resta de parcela da produção de obras que chamamos contemporâneas é o seu registro. Ao escrevermos sobre artes visuais e obras concretas, em algum momento sentimos a necessidade de “vê-las”. Neste sentido, este curta fornece-nos ferramentas discursivas para adentrar os registros de obras efêmeras ou de obras concretas que só podem ser acessadas por imagens ou por descrição, de forma a garantir a sua integridade e o acordo com o discurso daquele que a produz.

Propõe-se aqui, como desenvolvido na pesquisa de mestrado, ora em andamento, a traição das obras no sentido de construir narrativas, ainda que fragmentadas, com a finalidade de potencializar os discursos delas mesmas e minar os discursos puramente institucionais (ainda que consideremos o discurso acadêmico igualmente institucionalizado), vislumbrando no curta-metragem um método legítimo de apropriação de imagens alheias – imagens que representam as obras do artista.

Consideramos esse tipo de abordagem metodológica interessante como forma de aproximação da criação de obras de uma artista. Entendendo que as operações de montagem e a narrativa de Van Gogh (1948) seriam um possível legado metodológico para utilizar discursos capazes de unir vida e obra a partir delas mesmas.

Bibliografia

AISENGART, Inês; BORGES, Cristian; CAMPOS, Gabriela. Retrospectiva Alain Resnais : a revolução discreta da memória. Rio de Janeiro: CCBB, 2008.

AUMONT, J. O olho interminável: cinema e pintura. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

BAZIN, André. O Cinema: Ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991.

COLI, Jorge. Vincent van Gogh: A noite estrelada. São Paulo: Perspectiva, 2006.

MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo: Cosac &Naify, 2004.