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  Título
Antecampo com aspas: estratégias reflexivas em filmes indígenas
Autor
André Guimarães Brasil
Resumo Expandido
Logo na primeira cena de Corumbiara (2009), Vincent Carelli comenta as imagens do documentário A Festa da Moça (1986), experiência inaugural do Projeto Vídeo nas Aldeias. Naquela época, tratava-se de filmar os índios e retornar a eles as imagens: entusiasmados com a possibilidade de se ver na telinha, “os Nambiquara começam a delirar e a gente com eles”. Eis que, provocados pelo filme, retomam uma cerimônia há 20 anos abandonada e furam o lábio de trinta jovens.

Explicita-se ali, logo no início do projeto, a força performativa do cinema: se, por um lado, é sabido que a câmera intervém na situação filmada, criando a cena, por outro lado, o filme retorna ao mundo quando é assistido, instaurando novos desdobramentos. Para o Vídeo nas Aldeias, essa performatividade das imagens é central: ali, o cinema torna-se um importante instrumento de invenção da cultura, tal como a compreende Roy Wagner. Como bem mostra o trabalho seguinte de Carelli, O Espírito da TV (1990), ao ver a própria imagem confrontada às imagens de outras etnias, os Waiãpi demarcam e performam sua cultura, não sem que se notem os mútuos intercâmbios. O Espírito da TV sugere ainda uma questão totalmente nova: é a própria noção de imagem que se mostra outra, em tudo diferente da acepção “ocidental”: entre as várias etnias, as imagens circulam, não apenas representando os aspectos culturais, mas carregando, de um lado a outro, os seres, os corpos e os espíritos.

Se nestas experiências iniciais, os índios “se vêem vendo as imagens”, quando começam a filmar a própria experiência cultural, passam a “se ver vendo e produzindo as imagens”: os filmes se fazem acompanhar por fortes traços reflexivos. Não são raros os exemplos em que o processo de produção do filme se explicita, em uma estratégia que, a princípio, guarda semelhanças com a “tradição” do cinema moderno (de viés antiilusionista).

Gostaríamos, contudo, de marcar uma distinção, desenvolvendo a hipótese de que a reflexividade, nesse caso, é um fato cultural amplo, que não se endereça apenas ao cinema. Sem desconsiderar as enormes diferenças – de propósito e resultado – entre os filmes, o que chamamos de “cinema indígena” é uma manifestação contemporânea daquilo que Manuela Carneiro da Cunha chamou de “cultura com aspas”, quando os índios se valem das definições antropológicas da cultura para performar e citar reflexivamente a própria cultura. Trata-se, portanto, de um processo de indigenização do cinema, assumido fortemente como prática cultural e interétnica.

Em inúmeros filmes, os índios não apenas expressam os elementos culturais de um povo, mas recorrem a procedimentos reflexivos para refletir sobre o modo como a cultura se expressa, a maneira como historicamente ela tem sido representada e como atualmente o cinema é capaz de figurá-la; eles produzem imagens e refletem, indiretamente, sobre a concepção de imagem que lhes é própria; eles produzem o filme e explicitam a prática de sua produção, misturada as outras práticas da aldeia, em permanente negociação.

Será preciso, em contrapartida, eleger um lugar, no filme, onde esse processo cultural amplo se encena. Trata-se, a nosso ver, do antecampo (o espaço atrás da câmera, com os sujeitos que abriga): a constante e consciente exposição do antecampo em filmes indígenas explicita a produção da obra como espaço de negociação: de filme a filme, a prática do cinema precisa ser negociada entre os membros da aldeia, entre a equipe de trabalho (formada por indígenas e não indígenas), sendo, em alguns casos, resituada no âmbito da história das imagens que se fizeram dos índios. Nossa apresentação convocará livremente algumas cenas em que o antecampo se expõe: para além de uma estratégia antiilusionista, trata-se de um domínio polifônico (e polemológico): se o filme é parte da invenção da cultura, “sua atividade é plural e além do controle de qualquer indivíduo” (parafrasendo James Clifford).

Bibliografia

BRASIL, André. Bicicletas de Nhanderu: lascas do extracampo. Devires - Cinema e Humanidades, Belo Horizonte, v. 9, n. 1, jan./jun. 2012. No prelo.

CAIXETA DE QUEIROZ, Ruben. Cineastas indígenas e pensamento selvagem. In: Revista Devires – Cinema e Humanidades, v. 5, n. 2, jul./dez. 2008, p. 98-125.

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. “Cultura” e cultura: conhecimentos tradicionais e direitos intelectuais. In: Carneiro da Cunha, M. Cultura com aspas. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

CLIFFORD, James. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011.

SAHLINS, Marshall. O "pessimismo sentimental" e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um "objeto" em via de extinção (parte I). Mana [online], v. 3, n.1, 1997, p. 41-73.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Perspectivismo e multinaturalismo na América indígena. In: A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.