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  Título
Apocalypse Now: impressões históricas do front
Autor
Gisele Krodel Rech
Resumo Expandido
A Guerra do Vietnã, que tomou parte no Sudeste Asiático entre 1955 e 1975, foi considerada a primeira guerra midiática, com ampla cobertura jornalística, valendo-se dos mais diversos meios de divulgação das batalhas e de todas as atrocidades que cercou o conflito entre os Estados Unidos e o Vietnã do Sul. O cinema, que já se valera de outras disputas bélicas como matéria-prima, não tardou a apropriar-se da temática. Uma das primeiras incursões no terreno foi lançada apenas quatro anos após o término do conflito, pelas mãos do diretor Francis Ford Coppola. Apocalipse Now, vencedor dos Oscar de fotografia e som e da Palma de Ouro de 1979, teve o roteiro inspirado no romance Coração das Trevas, de Joseph Conrad, que ganhou as telas no trabalho conjunto do roteirista John Milius e do próprio Coppola. Conquanto essa adaptação seja pública e notória, é mister ressaltar a colaboração do jornalista e escritor Michael Herr na narração do filme, o que foi fundamental para a contextualização da época. O sentido da verossimilhança, que para Aumont e Marie "é apenas um conjunto de codificações e de normas ideológicas ligadas a um momento histórico", se fortaleceu com referências de um escritor que participou da cobertura da guerra e, inclusive, transportou a experiência para o livro-reportagem Despachos do front, de 1968. Mais tarde, desta feita no papel de roteirista, Herr trabalhou com o diretor Stanley Kubrick em Nascido para matar, de 1987.

Com base no trabalho do historiador francês Marc Ferro, busca-se responder qual o papel desempenhado por Apocalipse Now na construção de uma memória histórica da Guerra do Vietnã e de toda a efervescência provocada pelo evento bélico, incluindo as tendências culturais à época da guerra e as referências à contracultura, movimento avesso ao embate no qual os Estados Unidos estava envolvido. Aliás, dentro do contexto da contracultura, cabe relembrar o papel do movimento do New Journalism, do qual o próprio Herr se tornou uma das referências, ao lado de nomes como Tom Wolfe, e Truman Capote. Por isso é fundamental no escopo deste artigo permitir um breve repasse deste momento jornalístico-literário.

Na revisão da obra de Ferro, a pesquisadora Mônica Almeida Kornis elenca os critérios levados em conta pelo historiador francês ressaltando que ele "demonstra a importância do filme como fonte reveladora das crenças, das intenções e do imaginário do homem". No aspecto metodológico, a intenção é partir para uma análise focada na ideia de que há a necessidade de duas operações no processo, a destacar a que cobra o estudo e a crítica dos documentos utilizados no filme e a crítica de sua inserção no filme - que, no caso do presente estudo, está na obra de Herr, que segue as técnicas previstas da deontologia do jornalismo. Aqui, vale ressaltar as falas em off do personagem de Martin Sheen são retiradas da obra de Herr - destaque para o texto de abertura de Apocalipse Now.

Cabe ainda reforçar que para Ferro, no que concerne à análise do filme de ficção, deve-se levar em conta as características da sociedade que o produziu, além da relação entre os autores do filme e da busca do que o autor chama de não visível, que seriam percepções de uma época intrínsecas na obra. Até que ponto Apocalipse Now apresenta esses fragmentos? Como faz isso? E, por fim, qual a contribuição da obra para retratar o período da guerra e as reações da sociedade norte-americana a ela? O trabalho se debruça nos 202 minutos de filme.

Bibliografia

AUMONT, Jaques; MARIE, Michel. Dicionário Teórico e Crítico de Cinema. Campinas: Papirus, 2012.

BRIGGS, Asa; BURKE; Peter. Uma história social da mídia. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

COPPOLA, Francis Ford. [filme] Apocalypse Now. Estados Unidos: Zoetrope, 1979.

FERRO, M. O filme: uma contra-análise da sociedade? In: LE GOFF, J; NORA, P. (orgs.). História: Novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves Ed, 1978, p.199 - 215.

HERR, Michael. Despachos do front. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

JOHNSON, Michael L. El nuevo periodismo. Buenos Aires: Troquel, 1975.KORNIS, Mônica Almeida. História e cinema: um debate metodológico. In: Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol.5, n.10, 1992, p. 237-250.

SOBCHACK, V (ed.). The persistence of history: Cinema, Television, and Modern Event. Nova Iorque: Routledge, 1996.

TURNER, Graeme. Cinema como prática social. São Paulo: Summus, 2007.

WOLFE, Tom. Radical Chique e o novo jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.