/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Imagem crítica e cinema brasileiro recente: afetos “entre-corpos”
Autor
Ramayana Lira de Sousa
Resumo Expandido
Jacques Rancière, ao propor uma política da arte, coloca como fundamento uma separação, uma ruptura estética que resulta em dissenso, ou seja, no conflito entre várias sensorialidades. Tal conflito leva à constituição de novos corpos, não mais adaptados à partilha que estabelece os lugares, funções, competências e potências de cada um. Na relação com a obra de arte em geral, e com o filme em particular, os corpos não apenas desafiam essa partilha mas são também expostos a variações, fluxos e mutações. Assim, desse deslocamento dos corpos de seus lugares pré-determinados podemos ver irromper afetos que perturbam noções de realidade e identidade. O que procuramos com essa proposta é, pois, pensar a experiência estética como deslocamento e ruptura, marcada pela emergência de afetos que criam um espaço entre os corpos, aqui vistos (em mirada bergsoniana) como lugar de passagem, como hífen conectando as coisas. É nesse “entre-corpos” que podemos ver surgir, ainda que de forma sutil, sem a fulgurante retórica do espetáculo, o lampejo das imagens críticas.

A imagem,”não é o duplo de uma coisa. É um jogo complexo de relações entre o visível e o invisível, entre o visível e a palavra, entre o dito e o não dito.” (RANCIÈRE, 2010, p. 139), e podemos entender a imagem crítica como aquela que se fundamenta no dissenso, imagem que se assume precária e não explicadora, imagem que exige um abandono, imagem excêntrica.

Tais reflexões teórico-metodológicas nos surgem da observação de certo cinema brasileiro recente, especialmente em filmes como O som ao redor (dir. Kléber Mendonça Filho, 2012), A cidade é uma só? (dir. Adirley Queirós, 2011), Trabalhar cansa (dir. Juliana Rojas e Marcos Dutra, 2011) e No meu lugar (dir. Eduardo Valente, 2009). Tais obras se afastam de uma abordagem programática do real e demandam uma abordagem que vá além do desapontamento com a suposta passividade do espectador e do desencantamento da imagem como idolatria. A dialética entre imagem e mundo produzida por esses filmes parece levar a uma recusa da partilha empreendida pelo capital, ou seja, os filmes se recusam mesmo, através de gestos específicos a cada obra, a dar forma ao capitalismo, engendrando vislumbres de mundos em preparação.

Ao efetuar essa recusa, o cinema brasileiro de que falo aqui produz um excesso que não pode ser contido e coloca as seguintes questões: “o que fazer com o que já não cabe no seu devido lugar?” e “o que fazer quando já não há lugares devidos?” É essa redistribuição e esse excesso que constituem a política da imagem crítica. Imagem que toma lugar no “entre-corpos”.
Bibliografia

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 1998.

_______. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011.

MIGLIORIN, Cezar. 5 x Favela – agora por nós mesmos e Avenida Brasília Formosa: da possibilidade de uma imagem crítica In: Devires, Belo Horizonte. V. 7, N. 2, P. 38-55, JUL/DEZ 2010.

MASSUMI, Brian. A user’s guide to Capitalism and Schizophrenia. Cambridge; Londres: MIT Press, 1992.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Ed. 34, 2005

________. O espectador emancipado. Lisboa: Orfeu Negro, 2010