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  Título
a política radical do cinema de Pedro Costa
Autor
Jorge Vasconcellos
Resumo Expandido
O exercício de práticas e atos de criação no cinema é oblíquo, tortuoso e, por vezes, impuro. Aqui especificamente falando do chamado cinema documental que, à primeira visada, implicaria uma suposta adesão à verdade, aquilo que está sendo mostrado na tela teria uma relação de contiguidade direta com o real, não possibilitando, desse modo, mostrar-se permeável a processos de ficcionalização. Esse seria o cinema da verdade, não o cinema dos efeitos de verdade; este sim, provocando de modo muito mais sutil que evidente embaralhamentos entre o que teria de fato se dado e aquilo que é possivelmente um jogo de cena, um processo estudado, rigoroso de encenação. Esse processo de embaralhamento entre o ficcional e o real, essa fricção entre a ficção e o evento, pode ser denominado de fabulação. Fabulação é menos a indiscernibilidade entre ficcionalização e documentação; mais que isso, trata-se do jogo de trocas recíprocas entre o real e o imaginário, entre a construção narrativa – dirigida/proposta pelo realizador, aqui no caso cinematográfico - do que esta zona limite que faz artista/espectador deslocar-se entre esses pólos que estão mais próximos do que atesta uma certa visão clássica do cinema ficcional e documental. Trata-se de, filosoficamente, recusar um determinado modelo de verdade que asseguraria, sem riscos, estarmos diante do que seria uma ficção (algo inventado) e de uma documentação imagética do real (algo verdadeiro). Essa zona fronteiriça, pensada pela ideia formulada pelo filósofo francês Gilles Deleuze de “fabulação criadora”, torna-se porosa, permeável. Ademais, a potência mais radical que esta ideia contem é justamente seu aspecto político. O político pensado como dissenso e construção do Comum, no qual as forças políticas não estariam sujeitas aos jogos da representação, mas práticas de participação direta, na qual as mediações seriam eliminadas. Tratar-se-ia de pensar a partir do que um Comum. A política neste jogo de embaralhamentos eliminaria a forma do ‘falar em nome e/ou pelo outro’, mas deixar que a alteridade se faça discurso e visibilidade. Segundo nos aponta Rancière, o que caracterizaria hoje elo o denomina de ‘regime estético das artes’. Neste encontramos uma horizontalidade das inteligências e das sensibilidades, fazendo findar as hierarquias que dominavam os demais regimes, especial aquele por ele denominado de regime representativo.

No ensaio 'Política de Pedro Costa' Rancière nos mostra que a potência política dos filmes de Pedro Costa não se encontra na capacidade de seus filmes de revelarem as estruturas sociais que produzem a miséria na qual vivem os protagonistas de seus filmes – “nunca a câmera de Pedro Costa faz o trajeto habitual que desloca a objetiva dos lugares de miséria para aqueles onde os dominantes a produzem ou a geram” (As distâncias do cinema, p. 48) -, revelação esta que produziria uma tomada de consciência por parte do espectador. Ao contrário, a potência política residiria exatamente na sua capacidade de “estetizar” essa miséria e, o que é mais importante, é estabelecer uma zona de reciprocidade entre o modo de vida destas personagens relegadas à miséria, à exclusão e ao nomadismo pelo sistema econômico capitalista e aquilo que seria a própria potência política da arte, qual seja, a capacidade de as práticas artísticas embaralharem a partilha que garante a separação estanque entre dominados e dominantes. Como afirma Rancière, o que está em jogo nos filmes de Pedro Costa é “marcar a proximidade da arte com todas as formas em que se afirma uma capacidade de compartilhar ou uma capacidade partilhável” (idem, p. 158). Portanto, este mergulho na vida destes imigrantes moradores dos bairros pobres de Portugal em nada se confunde com uma denúncia da sua situação econômica, mas pelo contrário, se constitui como um esforço do cineasta de devolver à arte aquilo que lhe foi capturado pelo mesmo sistema que produz a exclusão do imigrante: sua capacidade de tornar uma experiência partilhável.
Bibliografia

DELEUZE, Gilles. CINEMA2 - A IMAGEM-TEMPO. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O QUE É A FILOSOFIA? São Paulo: Editora 34, 1992.

RANCIÈRE, Jacques. A PARTILHA DO SENSÍVEL. ESTÉTICA E POLÍTICA. São Paulo: Editora 34, 2005.

RANCIÈRE, Jacques. AISTHESIS. SCÈNES DU REGIME ESTHÉTIQUE DE L'ART. Paris: Galilée, 2011.

RANCIÈRE, Jacques. O ESPECTADOR EMANCIPADO. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2012.

RANCIÈR, Jacques. AS DISTÂNCIAS DO CINEMA. Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 2012.