/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Eu e o Outro, Avi Mograbi e uma mise-en-scène da fronteira.
Autor
Roberto Robalinho Lima
Resumo Expandido
A proposta desta comunicação é uma análise do documentário Avenge but one of my two eyes de Avi Mograbi (Israel, 2005). Mograbi faz um registro da 2ª Intifada a partir da relação entre três instâncias narrativas cinematográficas: 1. O relato do conflito por um Palestino com quem fala ao telefone; 2. A regulação do ir e vir dos cidadãos palestinos na fronteira feita por soldados Israelenses; 3. A narração da história e mitos de Masada e Sansão feitas por guias turísticos a jovens em visitação aos sítios históricos. Articulando esses três pólos narrativos, em uma triangulação complexa, o cineasta constrói uma mise-en-scène da fronteira e do conflito. O objetivo dessa comunicação é pensar como se dá essa mise-en-scène e quais as implicações dessa construção no corpo fílmico e na representação do próprio conflito.

A fronteira e o conflito, ao mesmo tempo em que servem de metáfora e espaço cinematográfico, são também lugares físicos e reais, feitos de pedra, terras e sangue. O muro, que separa Gaza de Israel, é forte o bastante para estabelecer e fixar crenças e identidades; a forte repressão vista no próprio filme revela o quanto é difícil atravessá-lo. Há um lugar rígido no qual homens, de carne e osso, raramente negociam: mortes e homens bombas são as imagens mais comuns a que temos acesso através da mídia, como resultado desse impasse. Mograbi, em seu filme, enfrenta esse espaço físico, subjetivo, violento e que possui uma forte pré-existência midiática, e constrói uma mise-en-scène para ele, na qual não há apenas um lado da fronteira, mas justamente o meio, o encontro, o confronto e a relação forçada e irremediável entre os que habitam os dois lados. Um dos pólos narrativos do filme é justamente o cineasta empunhando sua câmera na fronteira e nos portões que regulam o ir e vir dos cidadãos palestinos. A câmera, o olhar do cineasta, se coloca como um elemento complicador da relação entre soldados e palestinos, e se torna um terceiro vértice dessa relação.

Andréa França (2003) reflete como o cinema recria e elabora territórios e fronteiras, se libertando de identidades rígidas e espaços demarcados, elaborando uma geografia própria, afetiva, subjetiva e que, sem perder de vista os conflitos do qual faz parte, re-inventa lugares e sujeitos trazendo novas dimensões políticas e estéticas para os conflitos. Para Andréa, as fronteiras e territórios fílmicos não são representações de lugares específicos, empíricos, mas potências narrativas, desejos onde novos sujeitos são imaginados, novos mundos são pensados. Mograbi tem uma fronteira palpável em sua frente e precisa torná-la potência cinematográfica. O cineasta precisa transformar uma barreira intransponível entre ele e o outro (palestino) em cinema.

As narrativas, afirma Certeau, possuem o que chama de “paradoxo da fronteira”: “criada por contatos, os pontos de diferenciação entre dois corpos também são pontos de encontros. [Nas narrativas], conexões e desconexões são inseparáveis” (Certeau: 200, 2013). Em certo sentido, o filme de Mograbi, como narrativa fílmica, não foge deste paradoxo no qual a fronteira não é apenas um muro, mas um espaço para ser compartilhado por um Eu e um Outro. A pergunta fundamental nessa comunicação é: como, nas margens do quadro cinematográfico, surge uma fronteira em que sujeitos se fazem, se relacionam, inventam identidades, se confrontam e em última instância se tornam narrativas fílmicas? Isso, levando em consideração, como diz a todo tempo a voz palestina do outro lado da linha, que há um conflito real na porta de casa, e muitas vezes não há diferença entre viver e morrer. No filme de Mograbi, a barreira da fronteira se torna um ponto de encontro onde diferenças não são sublimadas e onde o conflito está lá para ser visto. Na narrativa, a realidade fílmica, funciona como “um terceiro do qual a minha relação com o Outro é constituída, na medida em que é, ao mesmo tempo, parte de mim e diferente de mim. (Comolli, 2008: 255).

Bibliografia

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 2000.



COMOLLI, J. Ver e poder – a inocência perdida: cinema, televisão, ficção,

documentário. Belo Horizonte: UFMG, 2008.



FRANÇA, Andréa. Terras e fronteiras no cinema político contemporâneo. Rio de

Janeiro: 7 Letras, 2003.