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  Título
O despencar da História e da forma em "A queda" (1978), de Ruy Guerra
Autor
Reinaldo Cardenuto Filho
Resumo Expandido
No contexto repressivo do pós-1968 no Brasil, de avanço da modernização conservadora e de esmaecimento do projeto das esquerdas tradicionais, vários cineastas realizaram filmes a diagnosticarem o colapso de uma via política que antes do golpe militar de 1964 apostara na emergência revolucionária do popular como perspectiva de solução das contradições sociais existentes no país. Diante desse mal-estar, em grande parte provocado por uma História tomada pelo autoritarismo, uma situação dramática recorrente foi a de personagens que se depararam com a crise de seus idealismos políticos: o que antes gerava um sentimento de ascendência, de promessa emancipatória a partir da representação do popular, aparecia agora como fissura, como colapso face à convulsão social. A partir de obras como Terra em transe (1967), de Glauber Rocha, e O bravo guerreiro (1968), de Gustavo Dahl, a sensação de ressaca histórica espalhou-se por diversos filmes realizados no Brasil.



O esgotamento da antiga via romântica, especialmente do cinema em compromisso com um projeto comunista de Revolução, parece adquirir uma forma singular de agonia no filme que Ruy Guerra realizou em 1978. Em A queda, de certo modo um prolongamento de Os fuzis (1963), o cineasta desloca dois dos soldados de seu longa-metragem anterior para um Rio de Janeiro tomado de assalto pela especulação imobiliária e pelo modelo mais violento de desenvolvimento capitalista. José (Hugo Carvana) e Mário (Nelson Xavier), outrora pertencentes ao exército, são agora dois operários da construção civil que levam uma existência sem perspectivas: o primeiro, trabalhando sem equipamentos de segurança, morre logo no início do filme ao cair de uma obra em construção, deixando uma viúva que não receberá nenhum de seus benefícios devidos. O segundo, genro de um ganancioso mestre de obras, vê-se esmagado em sua luta quixotesca contra o imobilismo popular e a exploração desenfreada das construtoras.



O início de A queda, com diversos planos de pessoas que vasculham o lixo atrás de alimentos, reserva alguns minutos para cenas terríveis de uma matança industrializada de bois. O golpe certeiro na cabeça dos animais, repetido várias vezes, em detalhes e com enquadramentos diversos, anuncia a definitiva transformação do popular em bois a serem massacrados no matadouro da História. Simbolicamente, a seqüência termina com os empresários brindando e tomando o sangue dos bois. Em Ruy Guerra, o cinema político, abatido em suas antigas pretensões revolucionárias, parece não mais encontrar condições de projetar futuros. No longa-metragem, a queda é o corpo que despenca da construção, mas é também o popular como anjo destituído de asas e de projeto de mundo: o que resta é apenas a dignidade de oferecer, criticamente, os sintomas de uma sociedade em crise.



Essa comunicação pretende colocar em análise os vários sentidos e camadas de “queda” no filme de Ruy Guerra: a literal, do homem cujo corpo cai da obra em construção; a simbólica, do povo diante da História que colapsou um possível projeto revolucionário; e a da mise-en-scène, cuja sujeira e aparência de improviso afastam-se da virtuosidade contida na estética de Os fuzis – desse filme realizado antes do golpe de 1964 – e geram um sentido de crise total a atravessar a própria experiência de (de)composição da forma.

Bibliografia

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ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo: Editora Brasiliense, 2001.



SADER, Éder. Quando novos personagens entraram em cena. RJ: Paz e Terra, 1988.



SARLO, Beatriz. “Um olhar político”. In. Paisagens imaginárias. São Paulo: Edusp, 1997, pp. 55-63.



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__________. Cinema brasileiro moderno. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.