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  Título
Reencenar eventos, restituir corpos
Autor
César Geraldo Guimarães
Resumo Expandido
Inscrita no contexto de uma indagação mais ampla em torno das relações entre os registros do documentário e da ficção no cinema contemporâneo, esta exposição compara dois filmes que, sustentados por escrituras peculiares e animados por propósitos distintos, se valem do recurso expressivo da reencenação: Serras da desordem (2003), de Andrea Tonacci e Pirinop, meu primeiro contato (2007), de Mari Corrêa e Karané Ikpeng. Os dois filmes combinam esse recurso com outros procedimentos, como a rememoração (por parte dos que viveram os eventos agora encenados) e a utilização de imagens de arquivo, submetidas a um trabalho de reinterpretação – seja por meio do comentário, seja pelas operações da montagem, que as vincula a outras passagens do filme e redimensiona, assim, o seu sentido. Embora muito distintos, os dois filmes permitem compreender, exemplarmente, as relações entre documentário e ficção sob um novo ponto de vista, para além de certas caracterizações recorrentes no âmbito da teoria do cinema. Como escreve Jacques Rancière em A partilha do sensível, o “regime estético da arte” fez com que o testemunho e a ficção passassem a pertencer a um mesmo regime de sentido, rompendo com distinções vigentes desde Aristóteles, que estabelecera a superioridade da poesia (que conta “o que poderia acontecer”) sobre a história ( concebida como sucessão empírica de acontecimentos, ela só pode contar “o que sucedeu”). Para o filósofo, o cinema inaugura uma nova modalidade de “história poética”, cujo realismo permite combinar os “rastros poéticos inscritos na realidade” e o “artificialismo que monta máquinas de compreensão complexas”. A arte das imagens-movimento pode recorrer então a um duplo expediente, segundo o autor: a “impressão muda que fala” e a montagem, que “calcula as potências de significância e os valores da verdade”. No caso dos filmes indicados, o que nos interessa é o modo com que, cada um à sua maneira, eles compõem sua mise en scène do real com elementos que remetem à “cena fundadora” do contato entre índios e não- índios, seja a do massacre e da desmemória (como em Serras da desordem), seja aquela do encontro amistoso que, em breve, se revelaria desastroso (como em Pirinop, meu primeiro contato). Em ambos, o gesto político que tanto reescreve quanto rasura uma experiência história traumática (o contato entre índios e não-índios) encontra sua tradução não apenas na reconstituição ficcional dos eventos, mas na restituição documentária dos corpos à cena filmada. Em duas situações de exílio – a de Carapiru, separado de sua tribo, e a dos Ikpeng, levados à força para o Parque do Xingu – o cinema retorna à cena do contato para descobrir o seu fora-de-campo.
Bibliografia

BRASIL, André. Carapiru-Andrea, Spinoza: a variação dos afetos em Serras da desordem. Devires: Cinema e Humanidades, v. 5, n. 2, jul/dez 2009.

CAETANO, Daniel (org). Serras da desordem. Rio de Janeiro: Azougue, 2008.

COMOLLI, Jean-Louis. Corps et cadre. Cinéma, éthique, politique. Lagrasse: Verdier, 2012.

FRANÇA, Andréa. A reencenação no cinema documentário. Matrizes, ano 4. n. 1, jul/ago 2010.

MARGULIES, Ivone. Corpos exemplares: a reencenação no neo-realismo. Devires – Cinema e Humanidades, v. 4, n.2, jul/dez 2007.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível. Estética e política. São Paulo: Ed. 34/Exo experimental, 2005.