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  Título
O Documentário Transnacional: A América Latina em Ao Sul da Fronteira"
Autor
Anelise Reich Corseuil
Resumo Expandido
Documentários recentes têm problematizado as relações entre um capitalismo transnacional e políticas nacionalistas latino americanas. Na luta contra a hegemonia de uma economia globalizante, filmes como The Fourth World War, Nossa Marca é a Crise (2005) e Ao Sul da fronteira (2012) demonstram a complexidade, confluência e apagamento de identidades culturais e nacionais. O documentário de Oliver Stone "Ao Sul da Fronteira", produzido em 2009, apresenta entrevistas e depoimentos de diversos presidentes latino-americanos, focalizando as diferenças políticas entre a América Latina e os Estados Unidos. Neste contexto, este trabalho analisa os discursos conflitantes subjacentes ao filme, quais sejam, seus discursos denunciatórios do neoliberalismo, o apagamento de diferenças nacionais através da própria construção estética e narrativa fílmica e a projeção de um discurso democrata e anti-republicano que perpassa a visão política da América Latina de Oliver Stone, no que Hess e Zimerman definem como Documentários Transnacionais (1997). No caso específico do filme, "Ao Sul da Fronteira", tem-se uma narrativa que aproxima países tão díspares quanto Brasil, Bolívia, Cuba e Equador, através de uma narrativa documental, que, ao mesmo tempo em que resiste e critica os discursos neoliberais e a mídia televisiva estadunidense, reafirma um apagamento das diferenças internas à América Latina ao projetar uma identidade latino americana revolucionária e politizada. Ao mesmo tempo em que o filme ironiza um suposto discurso hegemônico da televisão norte-americana sobre a América Latina , revelando o maniqueísmo das imagens e discursos televisivos, também projeta uma imagem homogênica e nacionalista de uma América Latina revolucionária que resiste o imperialismo estadunidense. Ao aproximar realidades culturais tão diferenciadas, a narrativa do documentário neutraliza as diferenças econômicas, culturais e geográficas existentes entre os diversos espaços geográficos, culturais e políticos latino-americanos, inserindo-se em discurso transnacional.



O documentário de Stone apresenta não apenas um tom denunciatório de políticas neoliberais, mas também uma tentativa estética e retórica de aproximar audiências do primeiro-mundo dos problemas econômicos, históricos e políticos de países do chamado terceiro mundo. Indo além de questões nacionais, o filme estabelece um problemático elo econômico, histórico, social e cultural entre comunidades globalizadas. Este panorama transnacional é explicado por diversos críticos culturalistas que apontam para um contexto pós-nacionalista contemporâneo onde,inevitavelmente, países de primeiro e terceiro mundos se inter-relacionam através de economias globalizadas (Stam, p. 32). Desta forma, o filme de Stone oferece uma rica leitura para os conflitos geopolíticos latino-americanos uma vez que políticas nacionalistas, conflito de classes e a relação entre o estado e a mídia são vistos a partir de uma perspectiva transnacional, nas inter-relações entre os hemisférios norte e sul.

Bibliografia

MUSSER, Charles. “Introduction: Documentary Before Verité”. Film History: An International Journal. V.18(4, 2006).



HESS, John; ZIMMERMAN, Patricia R. “Transnational Documentaries: A manifesto”. Afterimage, v. 24, n. 4, p. 8-15, 1997.

NAFICID, Hamid. “Between Rocks and Hard Places: The Intertistial Mode of Production in Exilic Cinema”. In Home, Exile, Homeland: Film Media, and the Politics of Place. Hamid Naficy Org. AFI Film Readers. New York: Routledge, 1999.

SALDAÑA-PORTILLO, Maria Josefina. The revolutionary imagination in the Americas and the age of development. Durham and London: Duke University press, 2003.

STAM, Robert. “Beyond Third Cinema: The Aesthetics of Hybridity”. In Rethinking Third Cinema. Ed. Anthony R. Guneratne. London: Routledge, 2003. pp.31-48.

WINSTON, Brion. Claiming the Real: The Documentary Film Revisited (London: BFI Publishing, 1995).