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  Título
Metaficção nos desenhos revoltos de Willian Kentridge
Autor
James Zortéa Gomes
Resumo Expandido
Nos filmes de animação e experimentos visuais do artista sul-africano Willian Kentridge, produção que já supera duas décadas, verificamos que os percursos narrativos das obras revelam um campo autorreflexivo, que faz uso dos rastros processuais do trabalho para construir e conduzir a narrativa. Os filmes desenvolvidos com carvão, técnica que Kentridge utiliza a partir de 1989, quando confeccionou a animação de “Johannesburg, 2nd Greatest City after Paris”, valem-se do ritmo de apagamento e sobreposição de riscos inscritos sobre o branco do papel. Cada quadro animado avança da luta com os borrões de um desenho anterior, para ser novamente sobreposto por outro desenho no mesmo espaço do papel. O artista explora os vestígios do trabalho para impor a transformação da animação, um palimpsesto gráfico, no qual cruza memórias de angústias pessoais e sociais da vida na África do Sul com seus movimentos de indagação frente aos objetos e atividades no estúdio. Destas transformações animadas articulam-se camadas de sentidos que são apresentadas como um fluxo que revolve uma narrativa na qual revela o próprio processo de criação, uma narrativa metaficcional.



A teórica literária Linda Hutcheon desenvolve estudos sobre o termo metaficção, no livro "Narcissistic narrative: the metafictional paradox" a autora conceitua características de narrativas que se voltam para reflexão do modo como o autor conduz e apresenta o processo criativo, no qual a metaficção:

”… é ficção sobre ficção – isto é, ficção que inclui em si mesma um comentário sobre sua própria identidade narrativa e/ou linguística. “Narcisista” – o adjetivo qualificativo escolhido aqui para designar essa autoconsciência textual – não tem sentido pejorativo, mas principalmente descritivo e sugestivo, como as leituras alegóricas do mito de Narciso. (HUTCHEON apud REICHMANN, 2006, p.333)



Ainda que o termo metaficção, apontado por Hutcheon, parta de análises sobre narrativas literárias, tomo esse conceito para tratar das narrativas processuais que encontram-se na obra do artista sul-africano Willian Kentridge. Portanto, busco analisar nos desenhos e filmes do artista essa propriedade autorreflexiva das obras que revelam o processo e questionam o olhar do espectador. Os artifícios utilizados por Kentridge tem a pretensão de colocar o espectador em posição, também, autorreflexiva, na medida em que se vê questionado pelo ritmo de (des)construção dos próprios mecanismos de construção do desenho. Ao tratar sobre essa autorreferencialidade, a Prof.a Dr.a Marilice Corona, observa: é como se pudesse apresentar-lhe um desenho em seu avesso e direito e, nesse momento, ele se perceberia vendo - ou seria melhor dizer decifrando? (CORONA,2009, p.72).



Na obra “7 Fragments for Georges Méliès” (2005), Kentridge revela através da paródia ao clássico do cinema de ficção “Le voyage dans la Lune” (1902), uma trama narrativa frente suas ações investigativas em estúdio. Mesclando documentos do processo e ficção, o artista interroga os seus fazeres artísticos, ao passo que flerta com a história do cinema, projeção e desenho. Kentridge fala sobre a criação desses filmes com truques simples de montagem, em relato a crítica Carolyn Christov Bakargiev, e destaca o seu interesse sobre o resgate do mistério presente nos filmes que exibem as atividades e transformações em estúdio. Ele recorda como o registro fílmico de artistas em situações de trabalho no estúdio foram recorrentes na história da arte, citando filmes dos processos de Jackson Pollock e das experiências do vídeo-artista Bruce Nauman. No entanto, Kentridge apresenta em seus filmes conexões e indagações sobre um pensamento gráfico que utilizam-se da simplicidade mecânica dos truques ilusionistas de Méliès. Kentridge é o próprio artista e protagonista em foco, ele utiliza técnicas para sugerir uma atmosfera mágica ao estúdio, no qual o artista ficcionaliza suas operações e propõe um fluxo que constitui um campo metaficcional.
Bibliografia

CORONA, Marilice. “Autorreferencialidade em território partilhado”– Tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Artes. Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, 2009.



GONÇALVES, Flávio Roberto, Fragmentos e transportes imperfeitos : algumas estratégias de construção de imagens. Texto desenvolvido para o Programa de Pós- graduação em Artes Visuais/ Instituto de Artes - UFRGS na Disciplina: Documentos de Trabalho, Porto Alegre, 2009.



HUTCHEON, Linda. Narcissistic narrative: the metafictional paradox. 2 ed. New York: Methuen, 1984



KENTRIDGE, William e BAKARGIEV, Carolyn Christov. “Drawing with Ants and the Illumination of Shadows.” Entrevista do dia 02 de Setembro, 2004 no MCA Foundation Hall, Museum of Contemporary Art. Artigo online:



REICHMANN, B. T. O que é metaficção? São Paulo: Ed.Scripta UNIAN-DRADE, v. 04, 2006.