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  Título
Três filmes, três vertentes
Autor
Maria Guiomar Pessôa Ramos
Resumo Expandido
O Cinema Experimental no Brasil pode ser localizado a partir de um momento isolado, com o filme Limite, de Mário Peixoto,1930, e depois com Pátio, curta de estreia do diretor Glauber Rocha, 1959.No Cinema Novo temos propostas de uma narrativa não linear,alegórica,e a ruptura com os filmes de estúdio dos anos 1950,mas é a partir do Cinema Marginal que se configura o momento ideal para a produção alternativa. Hoje, tempo de produção das novas mídias, o que pode ser chamado de audiovisual experimental? Além dos nomes de Carlos Adriano,Cao Guimarães, Júlio Bressane,Arthur Omar, e outros(os dois últimos começaram sua trajetória nos anos 1970 e permanecem na ativa),temos algumas experiências vinculadas ao chamado Cinema de Garagem. A partir da análise de três filmes dos 70’s,O Insigne Ficante,(1979), Jairo Ferreira, O anno de 1798,(1975),Arthur Omar,A família do barulho,(1970),Júlio Bressane, vou apontar para três possíveis vertentes a serem verificadas no Cinema Brasileiro Contemporâneo em filmes como: A noite dos chupa-cabras, (2011),Rodrigo Aragão.Canibalismo, magia negra, seres folclóricos, bizarrice, insanidade, vingança, doses de humor e violência.Um filme de terror brasileiro e a desconstrução do gênero.Aboio,(2005)Marília Rocha.Os relatos, as fabulações, a poesia e a música se fundem numa poética experimentação com a imagem e o som.A casa de Sandro(2009) Gustavo Beck.Remete ao documentário, o filme busca estranhamento ao nos apresentar "a casa" geograficamente localizada e "Sandro" em molduras muito diferentes.A fuga da mulher gorila, (2008),Bragança e Meliande.Duas meninas em uma van viajam oito dias pelas redondezas do estado do Rio.A curtição do avacalho,Petter Baistorf (2006).Crítica anárquica e antropofágica contra a homogeneização do cinema de entretenimento.Uma homenagem ao cinema marginal brasileiro e à boca do lixo.(Sinopses:Dellani Lima) Vou estabelecer um diálogo entre essa produção contemporânea e os filmes marginais aqui mencionados, tendo como base a descrição do material fílmico escolhido,priorizando o estudo da montagem, que nesses filmes é completamente comprometida com a colagem, no sentido mais próximo da proposta da antropofagia oswaldiana.Em A família do barulho,primeiro filme da produtora Belair,Bressane alterna fotos e filmes domésticos de sua família, com fotos históricas da política brasileira, mais cenas interpretadas por Helena Ignes, Guará, Kleber Santos e Maria Gladys, a odalisca contratada.As sequências com os atores compõem, no viés da chanchada e do grotesco, o que também poderia ser um filme de família. O anno de 1798, junto a Congo,(1972) e Triste trópico,(1974),investiga a Revolta dos alfaiates, tentativa de libertação do Brasil do julgo português, nos moldes da Inconfidência mineira, contrastando o texto histórico,que é emitido pela voz over, masculina, grave, didática, comum ao documentário padrão, com imagens de estátuas, corredores, portas, janelas do Museu de Arte do Rio de Janeiro, e cenas de uma operação de parto cesariana, onde vemos o bebê ser retirado da barriga da mãe e depois recolocado em um movimento invertido.O Insigne Ficante retoma o formato crítico-afetivo-citativo de O Vampiro da Cinemateca(1976), conseguindo através da tradição do cine-diário, aproveitar registros do seu cotidiano,como o universo cultural-geográfico da Boca do Lixo, refletindo sobre a presença do experimental no cinema brasileiro.Em Paris, junto ao amigo e crítico de cinema Inácio Araújo,Jairo traz a experiência da poesia de Erza Pound E nomeia seus mestres: “existem os inventores, os mestres, os diluidores, os fazedores de moda”.Cita a tradição do experimental no Brasil,inserindo imagens do mítico Limite,na época, recém-restaurado.O tom debochado de Bressane que também está presente no viés documental de O anno de 1798 e de O Insigne Ficante, aparece com apelo visível ao horror e ao grotesco,paródia crítica dirigida à família e à classe média, presente de uma outra forma no cinema contemporâneo.
Bibliografia

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XAVIER, Ismail.Roteiro de Júlio Bressane:apresentação de uma poética. In ALCEU, v.6,2006