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  Título
"Somos tão jovens": a formação de um público em transformação
Autor
Pedro Peixoto Curi
Resumo Expandido
“A juventude como espírito do tempo e estilo de vida já estava sedimentada com a própria ideia de modernidade, e se adensará após a entrada em cena do jovem propriamente dito, como ator social, e com o crescimento e acelerada diversificação das formas midiáticas e das práticas de consumo” (Enne, 2010: 21).

Em uma sociedade em que o importante é ser jovem, independente da idade que se tem, o mercado audiovisual se volta para esse público, muitas vezes pensando mais no conteúdo do que nos próprios espectadores. É aí que surgem as perguntas: quem compõe esse público jovem? Quais suas especificidades? Qual o papel do conteúdo em sua formação?

A origem desse público não é totalmente desconhecida. Na Europa e nos Estados Unidos, os efeitos da Segunda Guerra mundial seriam sentidos em diversas áreas da sociedade. Um deles foi o surgimento de uma cultura juvenil, que seria resultado de fatores como o maior acesso à educação continuada e um aumento do poder aquisitivo dos integrantes mais jovens da sociedade.

Ao contrário de seus pais, essa geração não havia vivido as privações da guerra e veria o mundo por um ângulo diferente e, enquanto estavam nas ruas, tinham dinheiro e queriam se divertir, o cinema começava a pensar neles e a representá-los. No entanto, uma categoria de filmes já mirava nesse público: os teenpictures ou teenpics.

Sam Katzman é um dos primeiros a notar potencial nesse público que surgia e, guiado por pesquisas feitas na época, investiu na produção de filmes direcionados a espectadores de 15 a 25 anos, desenvolvendo, a partir disso, uma nova forma de fazer cinema, tirando o foco do conteúdo e transferindo para a audiência. Ao mostrar que adolescentes podiam, sozinhos, sustentar um sucesso de bilheteria, empurrou a estratégia de produção cinematográfica na direção dos teenpics (Doherty, 2002 : p. 57).

De acordo com Timoty Shary (2002: 2-6), o cinema jovem no fim da década de 60 e início dos anos 70, foi marcado pela implementação da classificação indicativa e emancipação dos jovens nos Estados Unidos, além da Guerra do Vietnam e movimentos jovens pelo mundo.

Na década de 80, um novo personagem entra em cena, o Shopping Center. Com o declínio das salas de cinema, Hollywood apostou na variedade e conveniência do multiplex, que tinha os jovens como público principal.

Timoty Shary defende ainda que tudo isso deu aos jovens no fim do século XX um maior potencial e material para a formação identitária desse público (idem: 7).

Sunaina Maira e Elisabeth Soep (2005) localizam os jovens no centro da globalização, caracterizando-os como o principal alvo da indústria do entretenimento. Baseando-se mais em uma posição social estruturada por poderes de consumo, criatividade e cidadania do que na idade biológica, apresentam a juventude como um lugar de conflito ideológico que evoca questões relacionadas ao poder em contextos locais, nacionais e globais.

Para Ross e Stein (2008: 4-5), o conteúdo audiovisual jovem está mais associado a um suposto público do que com o conteúdo, no entanto, identificam que o conteúdo não necessariamente determina o público real. Por mais que o audiovisual jovem seja popularmente associado a uma determinada faixa etária, produtoras, emissoras e anunciantes que desejam e esperam jovens espectadores como principal alvo, acabam atingindo públicos mais novos e mais velhos.

As questões desse trabalho surgem de um questionamento em torno da pesquisa apresentada no seminário de Recepção Cinematográfica e Audiovisual no encontro da Socine de 2012, na qual públicos de diferentes faixas etárias apresentavam comportamentos semelhantes diante dos mesmos produtos, apontando para questões que iriam além da idade, ainda que apresentassem questões geracionais relevantes.

Este trabalho propõe, agora, investigar a formação do público jovem a partir de um contexto histórico e compreender como ele se organiza atualmente em um mercado globalizado, levanto em conta a maneira como o conteúdo se relaciona com os espectadores.
Bibliografia

BUENO, Z. de P. Leia o livro, veja o filme, compre o disco: a produção cinematográfica juvenil brasileira na década de 1980. Tese de doutorado. UNICAMP, 2005.

DAVIS, G.; DICKINSON, K. (orgs.). Teen TV: Genre, Consumption, Identity. Londres: BFI, 2004.

DOHERTY, T. Teenagers and Teenpics: the juvenilization of American Movies in the 1950’s. Philadelphia: Temple University Press, 2002.

ENNE, A. L. S. Juventude como espírito do tempo, faixa etária e estilo de vida: processos constitutivos de uma categoria-chave da modernidade. Comunicação, Mídia e Consumo, v. 7, p. 13-36, 2010.

MAIRA, S. e SOEP, E. (orgs.). Youthscapes: the popular, the national, the global. Philadelphia: UPenn Press, 2005.

ROSS, S. M.; STEIN L. E. (orgs.). Teen Television: Essays on Programming and Fandom. Jefferson, McFarland & Company, 2008.

SHARY, T. Generation Multiplex: The image of Youth in the Contemporary American Cinema. Austin: UTexas Press, 2002.

STAIGER, J. Media reception studies: New York: NYU Press, 2005.