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  Título
Ficção e Documentário em “The Brig” de Jonas Mekas
Autor
Priscyla Bettim
Resumo Expandido
Os avanços técnicos como a câmera e gravador de som portátil permitiram novas experiências cinematográficas que foram fundamentais para o nascimento de uma nova forma estilística do cinema documentário no final dos anos 1950, o chamado Cinema Direto.

Essa nova linguagem passou a incidir sobre a produção ficcional, possibilitando o surgimento de um novo cinema no qual os domínios de ficção e documentário deixam de existir de maneira delimitada para coexistir em uma única obra.

Utilizando de procedimentos e técnicas advindas do Cinema Direto, em 1964 Jonas Mekas finaliza seu segundo longa-metragem, The Brig, no qual registra uma peça ultrarrealista sobre a crueldade militar, encenada pela companhia de teatro Living Theatre, em Nova Iorque.

Convidado por Judith Malina para assistir à peça The Brig, Jonas Mekas resolve abandonar a peça logo após os trechos iniciais. Com o pouco que assistiu sofreu um choque, e tinha como intenção voltar e filmar a peça, assití-la pela primeira vez através de sua câmera. Mekas pretendia registrar o que acontecia no palco como se a ação se passasse numa cadeia real, como se ele fosse um repórter que havia consigo permissão da marinha norte-americana para adentrar em suas celas. Para isso, não poderia saber o que se sucederia ao longo da peça, pois sua intenção era ser surpreendido pela ação no palco, para que a reação da câmera durante as filmagens fosse a mais espontânea possível.

The Brig não se trata de um registro convencional de uma peça de teatro, na qual a câmera se posiciona estática em frente ao palco, fora de cena, como nos teatros filmados dos primórdios do cinema. Nem de uma peça decupada e ensaiada, registrada como um filme de ficção tradicional. Para Jonas Mekas, enquanto filmava, aquela “era” uma cela real. A câmera de Mekas capturou as imagens de cima do próprio palco, num corpo à corpo com a encenação, usando a câmera na mão e circulando livremente entre os atores. Desse modo a peça não nos é mostrada em sua totalidade, mas sim de maneira similar ao que os olhos de um repórter poderiam captar se aquela fosse uma situação real.

O filme começa com a cartela: “March 7, 1957, U.S. Marine Corps, Camp Fuji, Japan – 4:30”. No início do filme, em momento algum é explicado aos espectadores se aquela produção é uma tomada da realidade/documentário ou um filme de ficção. Pela veracidade e crueza com que o exterior é captado, o espectador desavisado é colocado em uma situação de dúvida.

Nas imagens que se passam, acompanhamos um dia na vida dos prisioneiros em “The Brig”, obrigados a cumprir ordens sem sentido que chegam ordenadas aos berros, e que os obrigam a executar com perfeição ações de organização e higiene. Os presos são impelidos a obedecer qualquer que seja a ordem, de forma instantânea e mecânica, sem ter tempo de racionalizar sobre o seu significado.

A câmera captou a “realidade” da peça de perto, próxima aos atores, próxima aos seus gritos, em cenas claustrofóbicas e aterrorizantes. A câmera reage à dores dos personagens, reage à violência em cena. O som direto faz com que a sensação de realidade aumente, e mesmo quando vemos uma ação em quadro, podemos ouvir outras ações que ocorrem fora dele, o que por vezes amplia a sensação brutal e a bestialidade das situações captadas. Não há trilha sonora, mas uma orquestração de sons, gritos e passos erigidos pelos próprios atores e pela encenação, na construção de uma espécie de “sinfonia do horror”.

The Brig foi construído de uma maneira extremamente realista, e a encenação dos atores tão meticulosamente visceral, que acabou como o filme vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Veneza no ano de 1964.

Essa comunicação pretende investigar e analisar os mecanismos utilizados por Mekas na construção de seu filme, e evidenciar os aspectos documentais, ficcionais , e suas fronteiras, presentes na obra.



Bibliografia

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