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  Título
500 Almas: efeitos de real, de memória e de história
Autor
Clarissa Nanchery
Resumo Expandido
Embora não tão recente, o filme '500 Almas', realizado por Joel Pizzini em 2004, traz algumas das maiores inquietações que atravessam, de maneira geral, as discussões sobre o documentário contemporâneo. Se antes a grande questão do documentário era o engajamento social do cineasta na realização deste tipo de filme, hoje pulsa uma veia reflexiva a respeito da interferência do autor e do espectador na construção de efeitos de realidade e coloca em cheque a complexidade de se fazer um cinema do real.

Podemos pensar na seguinte provocação: o filme opera para o real ou com o real? Em termos de composição narrativa, há em '500 Almas' ações típicas a qualquer documentário, afinal de contas, o diretor retrata a cultura dos índios guatós na região do Pantanal mato-grossense, em que chegaram a ser dados como extintos nos anos 1960. Pizzini optou por trazer informações sobre a aparição dos guatós na história do Brasil, evidências arqueológicas a partir de objetos cerâmicos, referência aos primeiros escritos realizados por historiadores, etc.

Mas certamente ao diretor interessa mais do que isso. Trata-se de experimentar novas estratégias e olhares, novos pontos de vista. Por esse motivo, podemos dizer que as imagens não operam para o real e sim com o real, pois o filme não busca o pragmatismo de responder a perguntas tematizadas com relação ao passado e futuro dos guatós, mas pretende investir em métodos de fazer cinema com a realidade ao mesmo tempo abordando uma questão política sobre a preservação da memória dos povos originários.

Embora paradoxal, isso não significa que o filme não possa ser considerado como documento – no sentido testemunhal –, pois entendemos que o documentário carrega consigo uma relação metonímica com a realidade. Para reivindicar esta possibilidade precisamos, no entanto, extrapolar a maneira de conceber os dados do real.

Já não hesitamos em compreender o conhecimento histórico como narrativas históricas produzida por indivíduos atravessados por suas próprias histórias e pontos de vista. Como ressalta Hayden White, a “história” era considerada um modo específico de existência e o “conhecimento histórico”, um domínio autônomo no espectro das ciências humanas. No século XX, entretanto, as considerações em torno dessas questões se processam numa atmosfera um pouco menos autoconfiante e em presença de um receio de que talvez não haja possibilidade de lhes dar respostas definitivas. (WHITE, 1995, p.17)

O autor trabalha com a ideia de ficções verbais e representações históricas cujos conteúdos “são tanto inventados quanto descobertos”, cujas formas se aproximam mais da literatura do que com os seus correspondentes nas ciências. E aqui, podemos estender a proximidade com o cinema.

Robert Rosenstone evidencia que a capacidade de reconstrução do meio audiovisual produz “outro tipo de informação”. Com o olhar de historiador, o autor aponta para o fato de o filme permitir contemplar paisagens, ouvir ruídos, sentir emoções, através dos semblantes dos personagens, ou assistir a conflitos individuais e coletivos.

Segundo Jean-Louis Comolli (2008), o documentário se faz "sob o risco do real" e o "real" para ele são também lapsos, frestas, brechas, pausas, silêncios. São indeterminações e descontroles capazes de sugerir mais sobre o real do que a própria completude. É preciso atentar para o quanto se conta da história desses índios guatós por meio do seu silêncio e da falta de memória com relação à língua nativa. Conforme propõe Ferro, significa a contra-análise dos dados, uma forma de dizer que há um apagamento de uma cultura indígena a partir do processo civilizatório das populações nativas. E o filme tem a potência de dizer isso sem um discurso moralizante, ajuda a “descobrir" o latente por trás do aparente, o não-visível através do visível.
Bibliografia

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder - a inocência perdida: cinema, televisão, ficção e documentário. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

FERRO, Marc. O filme: uma contra-análise da sociedade? In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre (orgs.). História: novos objetos. Rio de Janeiro, Francisco Alves Ed., 1976, p. 199 - 215.

MIGLIORION, Cezar (org.). Ensaios no real: O documentário brasileiro hoje. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2010.

ROSENSTONE, Robert. “História em imagens, história em palavras: reflexões sobre as possibilidades de plasmar a história em imagens”. In: O Olho da História: Revista de História Contemporânea. Salvador, v.1, n. 5. 1998. p. 105-116.

SZTUTMAN, Renato (org.) Eduardo Viveiros de Castro (série “Encontros”). Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

WHITE, Hayden: Meta-história: A imaginação Histórica do Século XIX (tradução de José Laurênio de Melo), São Paulo: Editora USP, 1995.