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  Título
Arquivos do Desconhecido: a cultura do vídeo e o horror contemporâneo
Autor
Klaus Berg Nippes Bragança
Resumo Expandido
Nos últimos anos o horror tem sido objeto de investigação relacionado às renovações que o gênero sofreu com a passagem do século: mudanças temáticas das fobias e temores, como no caso dos torture porns; mudanças estéticas e narrativas derivadas das apropriações de outros gêneros e formatos, como o hibridismo sofrido com formatos documentários, telejornalísticos, ou mesmo a reality TV, os dispositivos de segurança e as câmeras portáteis amadoras. Ficções que se apropriam de tais estratégias têm se tornado cada vez mais frequentes e despontaram principalmente após o sucesso de sua referência máxima, A Bruxa de Blair (1999).

Uma das qualidades estilísticas desses exemplares é o acesso à fonte do registro, algo que pode ser visto também em A Bruxa de Blair quando atesta em sua narrativa que o material bruto (“found footage”) que possibilitou a montagem do filme foi descoberto nas ruinas de uma casa na floresta de Black Hills. Uma alegação desse porte é envolvida por motivos realistas, pois a “crítica da fonte” assume um contorno de evidência histórica capaz de assegurar a veracidade da narrativa por meio de um crivo científico legitimador. A origem da fonte de arquivo é um recurso caro para a fidelização às referências da realidade, uma forma de respaldar os excessos ficcionais através de vínculos que aludem a uma realidade confirmada pelo registro.

A mobilização afetiva do horror nesse caso é oriunda de estímulos agenciados pela ficção e por uma forma anunciada como não-ficcional, visualidades do real que o começo do século XXI viu se multiplicar e segregar em novas categorias, acompanhando o diletantismo de uma geração que colabora para construir coletivamente uma cultura fundada no vídeo (BUCKINGHAM, 2009). Uma época visualmente marcada por novos modos de representar o mundo, o Outro e a realidade, disseminados por uma cultura participativa composta por usuários que são simultaneamente produtores, distribuidores e consumidores deste conteúdo.

Podemos atribuir essa proliferação ainda ao fato do barateamento e popularização de tecnologias e dispositivos de visualidades, que facilitaram a dispersão e alastramento de imagens de arquivo ao longo do século XXI. Tecnologias digitais que possibilitaram a representação de realidades cotidianas espalhadas pelo globo e reunidas em bibliotecas imagéticas na internet – dispositivos digitais que estimularam qualquer indivíduo a produzir e distribuir seu próprio filme caseiro.

Sites como o Youtube e Vimeo agrupam vídeos feitos por pessoas comuns que expõem suas realidades privadas como um diário audiovisual. Alguns filmes de horror incorporaram estas estéticas amadoras produzidas com dispositivos portáteis que favorecem a impressão de um teor de autenticidade e legitimidade.

A cartografia proposta assume como procedimento a incursão por diversos exemplares do gênero, procurando observar as similaridades estéticas de suas convenções fílmicas, bem como o funcionamento de suas correspondências afetivas e corporais. O hibridismo de gêneros será um critério analítico também, pois a enunciação testemunhal exige a “crítica das fontes” comentada anteriormente.

A cultura do vídeo implica não apenas um novo olhar realista, mas um olhar sobre a intimidade doméstica de núcleos familiares. A família e o lar desde antes mesmo do surgimento das tecnologias digitais, já eram o principal assunto destes filmes. A possibilidade oferecida ao cidadão comum de registrar seu cotidiano fez do lar um local privilegiado para a inserção do horror, pois “agora, a ‘domesticação’ do cinema se estende não somente para a exibição de filmes em casa, mas bem como para os fins de produção, trazendo tudo de volta ao lar” (BADLEY, 2010: 50). O modo de produção caseiro fomentado pelas tecnologias de vídeo permitiram que amadores pudessem registrar sua realidade familiar, e esse modo de produção acabou sendo incorporado pelo filme de horror como uma estética do banal que registra também o extraordinário.
Bibliografia

ALOI, P. “Beyond the Blair Witch: a new horror aesthetic?” In: KING, G. (Ed.). The spetacle of the real. Bristol/Portland: Intellect Books, 2005, p.187-200.

BADLEY, L. “Bringing it all back home: Horror cinema and video culture”. In: CONRICH, I. (Ed.). Horror Zone. London/NY: I.B. Tauris, 2010, p.45-63.

BUCKINGHAM, D.; WILLET, R. (Eds.). Video Cultures: Media technology and everyday creativity. NY/Hampshire: Palgrave Macmillam, 2009.

PETLEY, J. “Cannibal Holocaust and the pornography of death”. In: KING, G. (Ed.). The spetacle of the real. Bristol/Portland: Intellect Books, 2005, p.173-185.

SOBCHACK, V. “Inscrevendo o espaço ético: dez proposições sobre morte, representação e documentário”. In: RAMOS, F. (Org.). Teoria Contemporânea do Cinema, volume II. São Paulo: Senac, 2005, p.127-157.

WILLET, R. “In the frame: capting Camcorder Culture”. In: BUCKINGHAM, D.; WILLET, R. (Eds.). Video Cultures: Media technology and everyday creativity. NY/Hampshire: Palgrave Macmillam, 2009, p.1-22.