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  Título
Carmen no cinema africano: múltiplas traições
Autor
José Gatti
Resumo Expandido
A história de Carmen é também a história de suas diversas versões. Com prováveis raízes em relatos orais, ela assume contornos nítidos no romance de Prosper Merimée (1845) e se populariza internacionalmente com a ópera de Georges Bizet (1875). Ela emerge, também, em diversas versões cinematográficas, que incluem paródias como a Burlesque on Carmen, de Chaplin (1915), e produções marcadas pela ousadia política, como a Carmen Jones de Otto Preminger (1954), com ação nos Estados Unidos contemporâneos e um elenco negro em tempos de lutas pelos direitos civis naquele país. Nesse mapeamento de tantas Carmens, que certamente deveria incluir as versões de Carlos Saura (1983), Jean-Luc Godard (1983) e de Francesco Rosi (1984), além de muitas memoráveis montagens em palcos do mundo, surgem duas versões africanas: Karmen Gei, dirigida por Joseph Gaï Ramaka no Senegal em 2001 e a produção sul-africana U-Karmen e-Kayelitsha, de Mark Dornford-May, que ganhou o Urso de Ouro de melhor filme em 2006, em Berlim.

Neste trabalho, focalizarei U-Karmen e-Kayelitsha, que sincretiza elementos aparentemente díspares e mesmo conflitantes com as versões européias, sugerindo significações que fomentam debates diretamente ligados ao contexto histórico e político da África do Sul contemporânea.

U-Carmen eKhayelitsha “trai” (no sentido de “traduttore, tradittore”) as narrativas-matriz de Merimée e Bizet ao render o texto de Carmen à língua xhosa e, de acordo com sua recontextualização, trazer para esta versão o universo cultural e as relações de gênero vigentes na comunidade bantu. O filme cria, também, uma rica mescla de ritmos e coreografias africanas que se articulam com a técnica operística européia.

U-Carmen eKhayelitsha traz para o primeiro plano alguns temas centrais nesta fase de (re)construção da sociedade sul-africana que tem início com a administração Mandela e a constituição de 1995, que permitiu o acesso das populações bantu à universidade e iniciativas mais específicas, como a difusão do canto lírico em comunidades desfavorecidas. Entre os temas focalizados pelo filme estão as relações de gênero nas comunidades negras, a pobreza e o legado do apartheid, tendo como cenário a favela de Khayelitsha, na Cidade do Cabo.

Para essa tarefa, recorro ao pensamento de Mikhail Bakhtin sobre a materialidade do romance através de sua articulação cronotópica; às idéias de Lezama Lima sobre as eras imaginárias e de Maya Deren sobre o uso criativo da realidade pelo meio cinematográfico.

Bibliografia

Anderson, Benedict. Comunidades imaginadas. São Paulo: Cia. das Letras, 2008

Bakhtin, Mikhail. The Dialogic Imagination. Austin: University of Texas Press, 1981, pp. 84-85; 243-258. Edição brasileira, com tradução problemática: Questões de Literatura e Estética. São Paulo: Unesp/Hucitec, 1993, pp. 211-213; 349-362

Botha, Martin, Marginal Lives & Painful Pasts: South African Cinema After Apartheid, Cape Town: Genugtig! Publishers, 2007

Deren, Maya. "Cinematography: The Creative Use of Reality," in The Avant-Garde Film: A Reader of Theory and Criticism, ed. P. Adams Sitney. New York: Anthology Film Archives, 1978

Lezama Lima. Las Eras Imaginarias. Madrid: Fundamentos, 1971

Maingard, Jacqueline, South African National Cinema, London: Routledge, 2007