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  Título
Documentários terroristas - notas sobre a tocaia
Autor
Mariana Souto
Resumo Expandido
No contexto cinematográfico brasileiro em que a maioria dos documentários se dedica à escuta atenta do outro, aproximando-se de personagens admiráveis, fazendo da relação respeitosa premissa dos filmes, algumas obras parecem nadar na contramão. Um lugar ao sol (Gabriel Mascaro, 2009) e Câmara escura (Marcelo Pedroso, 2012) se forjam não no encontro, mas no confronto com a alteridade – engajados numa relação de conflito, crítica ou franco ataque, dedicam-se a filmar o inimigo (COMOLLI, 2008).

Ambos são dos raros títulos nacionais que abordam as fatias aquinhoadas da população. É interessante observar que, de um lado, as relações de classe têm ressurgido em certo cinema brasileiro de ficção temperadas por elementos do horror, assimilando criaturas fantásticas e pesadelos, como em Trabalhar Cansa e O som ao redor. De outro, alguns documentários adquirem formas terroristas. Não por acaso ficções de terror e documentários terroristas emergem numa época em que as classes média e alta parecem sobressaltadas diante das transformações sociais e do enriquecimento da população de baixa renda. Nomeamos aqui, com certa liberdade, de “documentários terroristas” filmes cuja abordagem é pautada pelo medo e pela armadilha, pela estratégia de “guerra”, pela arquitetura de um dispositivo de infiltração, pela ultrapassagem de convencionais limites éticos.

Em Câmara escura, Marcelo Pedroso interfona moradores de casas de classes altas, deixando na porta um artefato misterioso: uma caixa que contém uma filmadora ligada. As pessoas, confusas, apavoram-se com o experimento, julgando ser parte de uma estratégia de ladrões para ter visão do interior da casa. Mais tarde, Pedroso entra em contato com os moradores para recolher as imagens da câmera oculta. Em um sagaz movimento de câmera, ressalta a hipocrisia dos moradores que criticam seu ato de gravá-los inadvertidamente, ao filmar a câmera instalada no portão da residência, para ele direcionada.

No filme, a câmera se torna artefato bélico, confundida com uma arma – um aparato de vigilância, um rastreador de localização, uma bomba. Depois de apavorar alguns moradores com sua caixa misteriosa, Pedroso é convocado a se explicar na polícia. As imagens deixam a qualidade de registros cinematográficos para se tornarem evidência, prova de um possível crime. O diretor utiliza a lógica dos próprios elementos que critica – a paranóia e a vigilância – para, de um modo um tanto quanto terrorista, desafiar modos de vida das camadas ricas, combater posturas, lançar luz sobre o que considera ser um distorcido estado de coisas.

Já o longa de Gabriel Mascaro tem como personagens moradores de valorizadas coberturas de capitais brasileiras. O filme procede ao exame da situação de habitar uma cobertura não apenas como um sintoma da verticalização por que passam grandes cidades, mas também como metáfora de uma posição na hierarquia social. Parte da estratégia de aproximação era se apresentar como um diretor famoso internacionalmente e chegar deliberadamente atrasado alegando compromissos importantes. Com isso, parecia querer forjar sua participação naquele universo, aproveitando-se da valorização do status, do exibicionismo, da necessidade de autoafirmação dos entrevistados, que pensavam estar conversando com um mesmo de classe, ficando assim mais à vontade para tecer determinados comentários. Mascaro atua como um espião travestido, armando uma tocaia, preparando um cenário favorável para a livre manifestação de um discurso reprimido fora daquele nicho. Falseia, assim, uma cena de ricos falando entre si, uma situação eticamente problemática, mas a que provavelmente ele não pudesse ter acesso de outra maneira.

Tanto Pedroso como Mascaro reacendem e reconfiguram, no campo das imagens contemporâneas, uma velha luta de classes. Com métodos questionáveis e subversivos, valem-se de armas e fraquezas do próprio inimigo: a vigilância, no caso de Câmara Escura, e a vaidade, em Um lugar ao sol. Olho por olho, dente por dente.
Bibliografia

COMOLLI, J-L. Ver e poder: a inocência perdida : cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



LINS, C. O filme-dispositivo no documentário brasileiro contemporâneo. In Sobre fazer documentário. São Paulo: Itaú Cultural, 2007.



MIGLIORIN, C. O dispositivo como estratégia narrativa. Digitagrama – Revista

Acadêmica de Cinema. Rio de Janeiro, 2005, vol. 3. Disponível em:

http://www.estacio.br/graduacao/cinema/digitagrama/numero3/cmigliorin.asp. Acesso em 02/07/2012.



NOVAES, Adauto. Políticas do medo. In: NOVAES, Adauto. Ensaios sobre o medo. São Paulo: Ed. SENAC São Paulo: Edições SESC SP, 2007, p. 9-16.



RAMOS, F. P. A cicatriz da tomada: documentário, ética e imagem intensa. In:

Teoria contemporânea do cinema. São Paulo: SENAC, 2005. p.159-227, v.2



RANCIÈRE, J. O desentendimento: política e filosofia. São Paulo: Ed. 34, 1996.