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  Título
Vidas-lazer 2.0
Autor
vinicios kabral ribeiro
Resumo Expandido
Vidas-lazer 2.0 é a continuidade de minha pesquisa apresentada no simpósio Imagens e Afetos no encontro da SOCINE em 2012. O conceito vida-lazer aparece nos filmes "Madame Satã" (Karim Aïnouz,2002) e em "Viajo porque preciso, volto porque te amo" (Aïnouz e Marcelo Gomes, 2009). No artigo anterior a vida-lazer foi esboçada a partir das falas de Patty, a prostituta de "Viajo porque preciso". No entanto, Patty enuncia a vida-lazer, mas ao longo do filme é outra personagem, José Renato, que a busca e também a deseja para si.

José Renato deambula, ao ermo e ao incomum, é um errante e sua vida-lazer está em/no movimento e na experiência do inesperado. Sua atribuição é produzir um relatório sobre a viabilidade de transposição de um rio. Mas sua viagem-trabalho é também viagem-lazer. A cada encontro, a cada folha seca e tronco retorcido, é possível atinar para as potências afetivas insurgentes do seu olhar. Ele se enreda em uma trama afetiva. Recolhe, como bem específico da sua profissão, fragmentos e sinais de sua vida-lazer. O geólogo observa o casal de idosos, que nunca se separou. O rapaz que faz colchão de chita, viril e tem cara de quem não brocha. Carlos e Selma “que passaram a noite namorando na bilheteria do circo”. Nessa paisagem afetiva, José Renato se modifica na viagem e na errância. Contorna suas dores. E mesmo às avessas, e mesmo com a máscara de amargura, ele é afetado “porque precisa, porque ama”. Ele sonha com sua vida-lazer.

Seria a vida-lazer inalcançável ou utópica? Onde ela se realiza ou se materializa? E quais gestos são possíveis nessas vidas? A priori, ela é invenção,construção, movimento, como nas veredas de Guimarães Rosa: "A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada (ROSA, Guimarães, p.658, 1994)".

Já não importa saber onde surgiu o conceito de vida-lazer, mas entendê-lo como um detalhe que interfere no quadro, na composição de cena, no roteiro e na relação de imagem e arte. Um detalhe localizável na obra de um autor e que desencadeia uma trama de relações. Um detalhe como um gesto que pode ser alcançado por meio da montagem. A vida-lazer é movimento, vivemos no movimento. Nesse ponto é pertinente destacar dois caminhos que se cruzarão: de um lado saber como uma vida-lazer se apresenta discursivamente e, de outro, como ela se traduz esteticamente.

A partir das contribuições do campo da filosofia, discuto as formas-de-vida (Agamben, 2000), as possibilidades éticas da existência e sua relação com a imagem cinematográfica. Inicio o esforço de responder a questão: como a vida-lazer se traduz esteticamente. O grande desafio é articular as conceituações de uma vida-lazer no campo das imagens, especialmente na máquina de signos cinematográfica. A vida-lazer como potência estética será uma das grandes questões de minha pesquisa e permeará as construções e debates futuros. Assim como o engendramento estético, ético e discursivo de uma vida cotidiana. Por ora, assumo a vida-lazer como produção de conceitos nos domínios não-filosóficos e seus protagonistas como personagens conceituais (Deleuze; Guattari, 1994).

Para as perspectivas de uma vida-lazer, desenho mapas e rotas a procura de suas visões estéticas. Munido das ferramentas conceituais do perspectivismo (Viveiros de Castro, 1996) e da cartografia sentimental (Rolnilk, 2007), exploro e intensifico as potências das vidas-lazer. Aqui é o lugar da experimentação metodológica, do exercício conceitual e da busca pelas intercessões e interlocuções. As personagens conceituais são apresentadas: Patty, Alice (A Casa de Alice), Ranulpho e Jovelina (Cinema, Aspirinas e Urubus), Éverlyn ( O Céu Sobre os Ombros), José Renato, Expedito (Transeunte) e Suely (O Céu de Suely). Tento urdir e imbricar essas vidas, colocando-as em perspectiva e extraindo possibilidades e experiências.

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Form-of-life. In: AGAMBEN, Giorgio ; BINETTI, Vicenzo. Means without end: notes on politics. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2000. p. 3-12.



DELEUZE, Gilles; Guattari, Félix. que é a filosofia? Rio de Janeiro, 34, 2007.



ROLNIK, Suely. Cartografia Sentimental, Transformações contemporâneas do desejo. Editora da UFRGS, Porto Alegre, 2007.



ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994.



VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio. Mana, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 115-144, out.1996. Disponível em: http:/dx.doi.org/10.1590/S0104-93131996000200005 . Acesso: 25 mar 2013.