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  Título
Entre cinema e fotografia: imagens hibridas de Alessandra Sanguinetti
Autor
Laila Melchior Pimentel Francisco
Resumo Expandido
No campo dos estudos da imagem muito se tem investigado no sentido de aproximar cinema e fotografia. A migração de imagens e dispositivos entre cinema e arte contemporânea aparece hoje como uma prática difundida em museus e galerias de todo o mundo. Categorias como "cinema de exposição" ou “fotografia expandida” ganham espaço, estimulando artistas e pensadores da arte a trabalhar sobre novas formas de fazer e exibir imagens. Se por um lado muitos desses conceitos surgem a partir das práticas ligadas às novas mídias e às tecnologias digitais da imagens; por outro lado, pode-se pensar uma qualidade mais abrangente da fotografia, esta entendida como coloca Antonio Fatorelli (2006), como “modelo de uma relação inaugural entre o humano e o maquínico” (p. 20) precedendo as questões introduzidas pelo advento digital. Neste contexto o presente trabalho dedica-se a analisar a série fotográfica “Las aventuras de Guille y Belinda y El enigmático significado de sus sueños”, da fotógrafa argentina Alessandra Sanguinetti no que ela estabelece relações com o cinema. As imagens retratam a passagem da infância à adolescência na vida das primas Guillermina e Belinda em fotos tiradas ao longo de seis anos na modesta propriedade da família das meninas nos arredores rurais de Buenos Aires. Destacam-se aqui os aspectos em que a série evoca e se aproxima potencialmente do cinema e, em especial, de algumas das questões da “imagem-movimento” apontadas por Gilles Deleuze (1983).

Ainda que constatemos e ratifiquemos o passar do tempo nas fotografias de modo a perceber uma ordem cronológica, não vemos refletir tal ordem na disposição expositiva das fotos. Um anacronismo fundamental é posto em jogo e a reflexão que ele provoca remete imediatamente às questões da duração e da montagem no cinema. Trata-se de um conjunto de imagens que, pese à sua origem documental, obedece a uma outra lógica que não a natural mas a de uma montagem decidida em último nível pelo trajeto do espectador que, diante das fotos, estabelece sua narrativa particular. Duração, montagem, documentário, narrativa: eis alguns dos termos mobilizados para abordar até agora a série de Sanguinetti. A hipótese deste trabalho repousa na intuição de uma dimensão fortemente cinematográfica na própria constituição da série de fotografias. Na esteira de teorias como as do “efeito-cinema”, “cinema expandido”, “entre-imagens” e “olho interminável”, prosseguiremos com a investigação das possibilidades de um meio híbrido entre cinema e fotografia, caracterizado por objetos de identidade flutuante. Para além desta abordagem, que é frequentemente baseada em questões do dispositivo, o trabalho segue majoritariamente uma outra direção.

Trata-se da desconfiança de que em Sanguinetti um mundo muda continuamente em qualidade: algo nele se encolhe e alarga na medida em que acompanha o passar do tempo. O processo retratado entre infância e vida adulta nunca acontece de maneira homogênea ou definitiva. Na imagem vemos avanços e retrocessos desordenados. Entre dois pólos parece estar o trabalho da fotógrafa, a indiferenciação do tempo que ganha corpo por meio das tarefas de documentar, arquivar e dispor imagens. O caráter físico da obra, sua materialidade fragmentada chama atenção para a montagem. Evidencia-se um dos aspectos fundamentais percebidos por Aby Warburg nas imagens: sua qualidade de objetos arqueológicos. Segundo ele cada imagem contém pontos de convergência de múltiplas temporalidades – sobrevivências – agenciadas por um processo algo maquínico, aquele da montagem, articulado pela memória. Assim, as fotografias de “Guille e Belinda” relacionam-se com o cinema, não só pelo aspecto dispositivo, mas principalmente por apresentarem em seu germe uma condição de funcionamento próxima àquela que Deleuze destaca no cinema, a do intervalo como elemento de abertura. Em Sanguinetti este elemento será responsável por uma abertura ainda maior: a do campo cinematográfico.

Bibliografia

BELLOUR, Raymond. Entre-imagens: foto, cinema, vídeo. Campinas: Papirus, 1997.

DELEUZE, Gilles. Cinema I: Imagem-Movimento. SP: Brasiliense, 1983.

DIDI-HUBERMAN, Georges. L’image survivante. Histoire de l’art et temps des phantomes selon Aby Warburg. Paris: Les éditions de Minuit, 2002.

____________. Atlas, Como levar el mundo a cuestas? Catálogo da Exposição do Museu Nacional Rainha Sofia. Tradução: Maria Dolores Aguilera, Madrid: Museu Nacional Rainha Sofia, 2010

DUBOIS, Philippe. “Cinema, vídeo, Godard”. São Paulo: Cossac Naify, 2004.

MACIEL, Katia (org.). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009.

FATORELLI, Antonio, BRUNO, Fernanda. Limiares da Imagem: tecnologia e estética na cultura contemporânea. Rio de Janeiro: Mauad X, 2006.

PARENTE, André. Cinema em trânsito: cinema, arte contemporânea e novas mídias. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2011.