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  Título
As virgens de Pedro Carlos Rovai: a castidade enquanto fórmula.
Autor
Luiz Paulo Gomes Neves
Resumo Expandido
Reconhecidamente um gênero brasileiro, a pornochanchada possui uma extensa produção centrada nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo nas décadas de 1970 e 1980. Seus filmes são em geral comédias de costumes com um maior ou menor diálogo com o erotismo, dependendo do contexto de análise. Em ambas as décadas, observam-se uma maioria de filmes pautados em histórias moralizantes que exploravam majoritariamente o corpo feminino. Suas narrativas eram centradas em personagens estereotipados como o marido traído, o vizinho tarado, o machão, o homossexual afetado, a virgem.



É comum na historiografia do cinema brasileiro e na crítica cinematográfica atribuir o ano de 1969 como o marco inicial para a pornochanchada relacionando-o a dois filmes: Os Paqueras, de Reginaldo Faria, e Adultério à brasileira, de Pedro Carlos Rovai. Se Faria usualmente rejeita a sua participação no gênero, diferenciando seus filmes enquanto “comédia de costumes”, Rovai assume tal terminologia e ainda se coloca como uma espécie de porta voz da pornochanchada.



Chamado de profeta por Jairo Ferreira, considerado mais importante que Ingmar Bergman por Paulo Emílio Salles Gomes, chamado de realizador por Newton Cannito, Rovai é constantemente retomado quando se propõe uma revalorização do gênero. Contudo, se a aura autoral do diretor/produtor em questão é percebida principalmente através da sua prática discursiva, da forma como se articulou dentro do campo cinematográfico brasileiro, seus filmes não deixam de ter um papel fundamental para a análise genérica.



A Viúva Virgem (1972) e Ainda Agarro Esta Vizinha (1974), por exemplo, são duas direções de Rovai que juntas chegam a 8,5 milhões de espectadores. Uma bilheteria considerável mesmo para os padrões da época. Dois filmes que, à exceção da maioria das pornochanchadas, foram recebidas de modo positivo pela crítica cinematográfica do período e até hoje são utilizados como exemplos para a valorização do gênero.



Porém, mesmo tais produções possuindo um certo “diferencial” (em termos de retorno de bilheteria e recepção da crítica), não deixam de ser filmes que se enquadram nos estereótipos do gênero da pornochanchada. Em ambos as produções, Adriana Pietro é a protagonista feminina que tem sua castidade utilizada como moeda de troca para a ascensão social. Ou seja, em um intervalo curto de apenas 2 anos, Rovai repete não apenas a atriz principal, mas também a própria fórmula, através da repetição e da variação, que havia gerado expressivo resultado de bilheteria: a virgindade feminina.



Para tal análise genérica, dois estudiosos que teorizam os gêneros cinematográficos são fundamentais. Primeiro, Rick Altman (2009), com sua tripla abordagem semântico/sintática/pragmática. Em A semantic/syntactic approach to film genre, o autor expõe que as definições do gênero dependem tanto de uma lista de traços ou conteúdos narrativos comuns, como atitudes, cenas, locações e sets (os elementos semânticos que formam o gênero), quanto das relações estruturais por onde esses traços comuns estariam organizados (os elementos sintáticos do gênero). Contudo, o próprio autor reconhece que somente a abordagem semântico/sintática não é suficiente para a explicação da descrição dos efeitos da discursividade dos gêneros, o que o leva a acrescentar na dupla equação também a abordagem pragmática. Ou seja, pensar o discurso enquanto ato, enquanto performance.



Segundo, Jason Mittell (2001) em A cultural approach to television genre theory. Aqui o autor parte do pressuposto de que os gêneros são categorias culturais que ultrapassam as fronteiras dos textos midiáticos e operam com indústria, público, tais como as práticas culturais. Assim, a melhor maneira de analisar os gêneros seria observando-os como práticas discursivas, embora sem retirar o texto de seu papel fundamental para análise e, assim, adentrar nas características, especificamente o papel da virgindade, de A Viúva Virgem e Ainda Agarro Esta Vizinha.
Bibliografia

ABREU, Nuno César. O olhar pornô: a representação do obsceno no cinema e no vídeo. Campinas: Mercado das letras, 1996.



_____. Boca do Lixo: Cinema e Classes Populares. Campinas: Editora Unicamp, 2006.



ALTMAN, Rick. Film/Genre. London: British Film Institute, 1999.



BERNARDET, Jean-Claude. “A Chanchada É Nossa: E sem a pornochanchada, o cinema brasileiro teria 112 dias?”. Movimento, São Paulo, 26 jan. 1976.



____________. Cinema brasileiro: propostas para uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.



BEZERRA, Júlio. “Pedro Carlos Rovai: Mais importante que Bergman”. Revista de Cinema, v. 5, n. 51, p. 12-17, jan. fev. 2005.



FERREIRA, Jairo. “Pornochanchada: a autocrítica de seu profeta”. Folha de São Paulo, São Paulo, 22 jun. 1977.



MITTELL, Jason. “A cultural approach to television genre theory”. Cinema journal 40, Austin, n.3, Spring 2001.



ROVAI, Pedro Carlos. “O realizador Pedro Rovai”. In: Sinopse. Revista de Cinema, São Paulo, CINUSP, nº 4, ano II, 2000.