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  Título
O horror através do estranhamento em "Eraserhead", de David Lynch
Autor
Rogério Ferraraz
Resumo Expandido
Esse trabalho propõe a análise de "Eraserhead" (EUA, 1977), primeiro longa-metragem do norte-americano David Lynch, buscando demonstrar como esse cineasta, desde o início de sua carreira como diretor, apropriou-se de elementos característicos do gênero horror, desenvolvendo-os dentro de uma proposta estética ancorada nos cinemas expressionista e surrealista, para desenvolver filmes pautados pelo estranhamento.

No mesmo ano em que concluiu o curso de belas artes, na Pennsylvania Academy of Fine Arts, em 1967, Lynch realizou seu primeiro filme, o curta de animação "Six Men Getting Sick". Um ano depois, dirigiu "The Alphabet". Com estes dois curtas no currículo, Lynch conseguiu uma bolsa de estudos no American Film Institute (AFI). Em 1970, com apoio do AFI, dirigiu "The Grandmother". Com esse premiado curta, Lynch entrou para o Centro de Estudos Avançados de Cinema de Los Angeles, ligado ao AFI. Em 1972, com 20.000 dólares conseguidos novamente no instituto, ele iniciou a realização de seu primeiro longa-metragem: "Eraserhead".

A obra demorou cinco anos para ser finalizada, sendo lançada em 1977. Com "Eraserhead", um retrato em preto-e-branco da angústia existencial do ser humano, ele confirmou a expectativa gerada por seus curtas. Segundo Claude Beylie, no livro "As obras-primas do cinema", em que incluiu o segundo longa do cineasta, "O homem elefante" (The Elephant Man, EUA, 1980), entre os mais importantes da história, Lynch “provou, desde seu primeiro filme, Eraserhead, pesadelo experimental nascido de um cruzamento de Frankenstein com Um cão andaluz, que deveríamos contar com a sua poesia tenebrosa.” (BEYLIE, 1991, p. 268)

"Eraserhead" começa com um prólogo, numa espécie de pesadelo. Esse prólogo é pautado mais pela atração do que pela narração, com a junção de imagens e sons inusitados e bizarros que, por si só, causam estranhamento. No entanto, o efeito perturbador causado pelas cenas que ocorrem logo após o prólogo, em que vemos o protagonista Henry Spencer (Jack Nance) voltando para casa após um dia de trabalho, é ainda mais intenso. A caracterização física de Henry, com seu cabelo arrepiado – ou, conforme escreveu Pauline Kael, “em permanente estado de choque, num afro pompadour quadrado”, lembrando uma borracha na ponta de um lápis (KAEL, 1994, p. 165) –, numa expressão extremada de impassibilidade; seu jeito autômato de caminhar; as imagens de uma cidade industrial deserta, mas com sons que denotam uma atividade vivaz; os ruídos extradiegéticos que não cessam; a câmera que insiste em mostrar o ambiente vazio, antes e depois da passagem do protagonista; o tempo alongado na espera pelo funcionamento de um elevador: os detalhes de uma cena banal – um trabalhador voltando ao lar – são acentuados, exagerados a tal ponto que acabam dotando o filme de um caráter estranho e incômodo, criando uma atmosfera permanente de horror.

Assim, "Eraserhead" (bem como os primeiros curtas) funciona como uma espécie de “manifesto cinematográfico” de David Lynch, seguindo a idéia de Adilson Ruiz (1993) sobre como os filmes iniciais de Luis Buñuel já apresentavam muitas das características que o cineasta espanhol posteriormente desenvolveria em sua obra. Dentre os vários aspectos intrigantes observáveis em toda obra de Lynch, um deles é o estranhamento, principalmente aquele gerado pela sensação de perturbação e incômodo causada a partir de situações cotidianas e cenas decorridas em ambientes comuns, familiares, “normais”. Lynch faz o normal parecer anormal, o convencional, anticonvencional, o familiar, estranho - próximo do conceito freudiano do "unheimlich" (FREUD, 1976). Em praticamente toda sua filmografia, desde "Eraserhead", encontram-se vários exemplos dessas situações elaboradas para criar tal efeito perturbador, que acentuam os elementos do horror.
Bibliografia

BEYLIE, Claude. As obras-primas do cinema. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

CHION, Michel. David Lynch. Londres: British Film Institute, 1995.

CHION, Michel. “Blue Velvet de David Lynch: Ce que couve l’immobilité des plantes”. In: Cahiers du Cinéma. No. 391. Paris: 1987.

FERRARAZ, Rogério. O cinema limítrofe de David Lynch. Tese (Doutorado em Comunicação e Semiótica). São Paulo: PUC, 2003.

HOBERMAN, J. & ROSENBAUM, J. "Eraserhead". In: Midnight Movies. New York: Da Capo, 1991.

HUGHES, David. The Complete Lynch. London: Virgin, 2001.

KAEL, Pauline. 1001 noites no cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

LYNCH, David; RODLEY, Chris. Lynch on Lynch. London: Faber and Faber, 1999.

RUIZ, Adilson. “Buñuel, um cineasta no exílio”. In: CAÑIZAL, Eduardo Peñuela (org.). Um jato na contramão: Buñuel no México. SP: Perspectiva, 1993.

TELOTTE, J. P. (org.). The Cult Film Experience: Beyond All Reason. Austin: University of Texas, 1991.