/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Uma "noite de câmeras ligadas": crise entre liberdade e engajamento
Autor
Daniel P. V. Caetano
Resumo Expandido
Em novembro de 1970, entre Buenos Aires e Santa Fé, na Argentina, ocorreu um episódio singular - posteriormente relembrado por Beatriz Sarlo no livro "A Máquina Cultural": em apoio a uma manifestação em defesa do curso de Cinema de Santa Fé, cineastas portenhos de vanguarda filmaram e montaram sete (ou oito) curtas-metragens em apenas três dias. O grupo era formado por alguns dos realizadores do chamado "Grupo dos Cinco", que havia lançado quatro longas-metragens nos cinemas em 1969, como "Tiro de Gracia", de Ricardo Becher, e "The players vs. Angeles Caídos", de Alberto Fischerman - que acabou assumindo um papel de liderança neste grupo e neste episódio que será comentado.



Ao saberem numa quarta-feira da realização da manifestação na noite de sábado, três dias depois, os cineastas portenhos se organizaram para filmar tudo em película reversível na noite e madrugada de quinta-feira e montar tudo entre sexta e manhã de sábado, para poderem exibi-los na ocasião.



No entanto, seus filmes recém-terminados no evento, ao serem projetados, provocaram protestos e um conflito violento entre "vanguardistas" e "militantes engajados" - que eram a quase totalidade dos presentes. Os filmes foram acusados de "contra-revolucionários" e de pretenderem sabotar a manifestação, e às discussões se seguiram momentos de maior tensão.



Essa briga se torna especialmente curiosa e reveladora de uma série de mal-entendidos quando se atenta para os filmes feitos em anos seguintes pelos líderes de cada um dos lados. O filme seguinte de Alberto Fischerman, por exemplo, intitulado "La pieza de Franz", relacionou um tema de Liszt aos eventos de 1948 e à publicação do Manifesto Comunista; por sua vez, o mestre que criou o curso de Santa Fé, Fernando Birri (que não estava presente ao evento, pois já havia se exilado), realizou ainda na década de 1970 o seu filme "Org", produção de forte cunho experimental que de modo algum poderia ser acusada dos equívocos mais comuns aos filmes "militantes".



Pretendo analisar este evento para pensar como se construíram historicamente as relações entre invenção artística e militância política naquele momento e qual a herança que nos foi deixada. A intenção, nesse caso, é traçar algumas analogias entre este evento e as trajetória destes personagens com os casos semelhantes ocorridos no Brasil no mesmo período (como entre os militantes do CPC e os cinemanovistas; ou posteriormente entre estes e os marginalstas); e, por fim, pensar de que maneiras estes conflitos se transformaram e se apresentam nos dias de hoje.

Bibliografia

AVELLAR, José Carlos, O cinema dilacerado. Rio de Janeiro: Alhambra, 1986.

BIRRI, Fernando, La Escuela Documental de Santa Fé. Santa Fé: Documento, 1964.

DAHL, Gustavo “Carta para Paulo Emilio Salles Gomes”. Disponível em http://filmecultura.org.br/wp-content/uploads/2011/11/Carta-de-Gustavo-a-Paulo-Emilio.pdf

GETINO, Octavio, Cine Argentino: entre lo posible y lo deseable. Buenos Aires: Ed. Ciccus, 2005.

GRINBERG, Miguel, “As ondas estão turvas. O velho ‘novo cinema’ argentino”. Cine y Medios, nº2, primavera de 1969.

ORTIZ RAMOS, José Mário, Cinema, Estado e Lutas Culturais , Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

OUBIÑA, David, El silencio y sus bordes. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011.

SARLO, Beatriz, La Maquina Cultural. Havana: Casa de Las Américas, 2001.

SOLANAS, Fernando, Solanas por Solanas: um cineasta da América Latina. São Paulo: Iluminuras, 1993.

TIRRI, Néstor (org.), El Grupo de los 5 Y Sus Contemporaneos. Buenos Aires: Secretaría de Cultura, 2000.