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  Título
O desvio pela ficção: contaminações no cinema brasileiro contemporâneo
Autor
Victor Ribeiro Guimarães
Resumo Expandido
Em “O desvio pelo direto” – conjunto de textos publicado em 1969 nos Cahiers du Cinéma – Jean-Louis Comolli identificava como uma das forças mais significativas dos filmes de ficção daquela década – de Godard a Jancso, de Cassavetes a Straub – o acionamento recorrente de estratégias advindas do cinema direto. Ao aproximar-se da encenação de um Perrault ou de um Rouch, a ficção desses diretores se contaminava pelo gesto documentário e abria uma “zona franca de experimentação e invenção” (COMOLLI, 1969, p. 53), que redefinia os rumos da modernidade cinematográfica.

No cinema brasileiro deste início de século, um conjunto de filmes parece apontar para um movimento inverso, mas que guarda um potencial igualmente transformador: no seio do documentário contemporâneo, emergem múltiplas estratégias ficcionais, que relançam o cinema em direção a um território de invenção. Em filmes como Jogo de Cena (Eduardo Coutinho, 2007) Juízo (Maria Augusta Ramos, 2008), Avenida Brasília Formosa (Gabriel Mascaro, 2010) e A cidade é uma só? (Adirley Queirós, 2011), parece estar em jogo uma sorte de desvio pela ficção, que reorganiza as relações entre os regimes narrativos e sinaliza novas possibilidades de compreensão dessas fronteiras. Partilhando de uma tendência do cinema contemporâneo – que vai da China de Jia Zhang-ke ao Portugal de Pedro Costa, passando pelo Camboja de Rithy Panh –, esses filmes fazem da contaminação entre táticas documentais e ficcionais um poderoso lugar de investigação cinematográfica, que encontra no Brasil uma inflexão singular.

A tarefa deste texto consiste em lançar um olhar crítico sobre as estratégias que habitam a mise-en-scène de alguns desses filmes, tendo em vista a identificação de linhas de força comuns e a análise da singularidade desses gestos desviantes no contexto brasileiro. Nas distintas modalidades de contaminação – personagens burlescos que irrompem em meio ao relato documental, performances que desafiam os limites entre vida e atuação, histórias vividas que se misturam às imaginadas, trajetórias cotidianas que se tornam ficção –, abrem-se horizontes inesperados para o espectador, no mesmo movimento em que se inventam maneiras singulares de encarar politicamente o presente do país.

Em Juízo, o dispositivo inventado por Maria Augusta Ramos – diante da impossibilidade jurídica de mostrar os rostos dos adolescentes infratores, a realizadora decide substituí-los por outros jovens, habitantes de bairros igualmente pobres – cria uma situação paradoxal para os espectadores: interpostos como mediadores de um campo/contracampo onde uma das faces é documental (os juízes, filmados em direto, desempenham seus próprios papéis) e a outra é ficcional (os atores não viveram aquelas experiências, mas recriam a performance dos acusados diante da lei), nosso olhar e nossa escuta vacilam, transitam entre a crença e a dúvida, são intensamente convocados em um poderoso ensaio sobre o devir criminoso no Brasil de nossos dias. Em A cidade é uma só?, no momento em que as abordagens intervencionistas da personagem Nancy – bem ao modo da entrevista documental – passam a conviver com a transparência, o campo/contracampo, os diálogos lapidares entre Dildu e Zé Antônio, as possibilidades de abordagem da perpetuação da desigualdade na Ceilândia contemporânea se ampliam imensamente, e o filme encontra na trajetória quixotesca de seu protagonista seu gesto político mais contundente.

Em um esforço eminentemente comparativo, nosso objetivo com este texto é o de, a um só tempo, aventar razões para a emergência dessas novas modalidades – certo esgotamento de estratégias documentais clássicas e modernas, intensificação do diálogo com outros cinemas ao redor do mundo, um desejo de intervenção política mais pronunciado – e perscrutar atentamente a forma dos filmes, no sentido de identificar regularidades e irregularidades e, principalmente, analisar a produtividade estética e política desses gestos.
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo, Cia das Letras: 2003.

COMOLLI, Jean-Louis. “Le detour par le direct (1)”. Cahiers du Cinéma, 209, fevrier 1969, pp. 48-53.

__________________. “Le detour par le direct (2)”. Cahiers du Cinéma, 211, avril 1969, pp. 40-45.

GUIMARÃES, César; GUIMARÃES, Victor. "Da política no documentário às políticas do documentário: notas para uma perspectiva de análise". Revista Galáxia, São Paulo, n. 22, p. 77-88, dez. 2011.

MIGLIORIN, Cézar. “Documentário brasileiro recente e a política das imagens”. In: MIGLIORIN, Cézar (org.) Ensaios no real. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2010.

OMAR, Arthur. “O antidocumentário, provisoriamente”. In: Revista de Cultura Vozes nº 6, ano 72, 1978, p. 405-418.