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  Título
Limite "desaparecido": A 1ª restauração do filme de Mário Peixoto
Autor
Alexandre Ramos Vasques
Resumo Expandido
"Limite" (Mário Peixoto, 1931) sofreu um processo de restauração físico-química durante os anos 1960 até meados da década de 1970. Nosso trabalho busca descrever os materiais com os quais o jovem estudante de Física, Saulo Pereira de Mello, se deparou ao ser escalado por seu professor e amigo, Plínio Süssekind Rocha para salvar o único filme de Mário Peixoto.

A feitura de Limite comprometeu diretamente a sua preservação: o número elevado de fusões do filme criou uma série de pontos de instabilidade química.

O primeiro desafio prático enfrentado por Saulo Pereira de Mello está relacionado à reprodução destas fusões no processo de restauração, sendo necessário conhecer de que maneira elas foram produzidas por Edgar Brasil, tendo sido feitas em copiador, através do uso de máscaras ou através da dupla exposição em copiadoras.

A ideia original de Saulo era partir do negativo original de Limite, realizando um "polimento" deste material para se obter um máster que geraria, por sua vez, um contratipo. Em carta de Saulo, datada de abril de 1960, remetida a Plínio, é mencionada, além do negativo, a presença de um copião que acreditamos se tratar, na verdade, da cópia em nitrato de Limite, já que a mesma em nenhum momento é suscitada no documento, e que serviria de acordo com esta análise inicial de Saulo, de guia de trabalho sobre o negativo.

Na carta citada consta o orçamento elaborado por Saulo com as estimativas de gastos para a restauração de Limite: Cr$ 430.400. Este valor revelar-se-ia bem abaixo do total gasto durante todo o processo.

Ao desenrolar os materiais fílmicos de Limite em mesa enroladeira, Saulo pode observar que as três primeiras partes da cópia em nitrato estavam deterioradas, a segunda parte estava severamente atacada pela hidrólise. Saulo pode verificar também as intervenções que Edgar Brasil realizou com o intuito de atenuar a deterioração do nitrato na obra. Visualmente, segundo Saulo, estes trechos, de origens diferentes, mostravam películas com mais ou menos fogs, sendo que uns eram mais amarelados do que outros.

O estado físico dos materiais impedia que Saulo os encaminhasse aos laboratórios comerciais: O encolhimento do suporte do negativo e da cópia em nitrato reduz a distância entre as perfurações, dificultando o encaixe destas com as grifas da copiadora.

A liberação da verba solicitada no orçamento citado, executada em 1961 por ordem do presidente Jânio Quadros, aproximou Saulo do laboratório do INCE, local que ele passou a frequentar diariamente, para a exposição do contratipo de Limite, tendo ao seu lado a participação de Manoel Ribeiro. A dupla utilizou uma copiadora Debrie que havia sido agastada para fazer as trucagens.

Define-se então que a impressão fica a cargo do INCE e o trabalho mais minucioso deve ser realizado no Laboratório Líder.

Saulo também se deparou com uma longa espera para conseguir a película virgem especial para a contratipagem, provavelmente um duplicate negative.

Sobre os procedimentos de trabalho de Saulo, podemos destacar a preocupação que Saulo sempre demonstrou com as qualidades e limitações da película pancromática para não prejudicar as tonalidades da fotografia de Edgar Brasil.

O aproveitamento correto da emulsão pancromática, da qual se procura extrair uma variação maior de tons de cinza, consiste no controle rigoroso do contraste para evitar que os grãos de prata tornem-se visíveis ao espectador quando projetados numa sala de cinema.

Estamos certos de que ao menos um internegativo e uma cópia tirada deste internegativo tenham sido produtos da restauração de Limite que partiu da cópia em nitrato, tomando o negativo como referência para a fotografia.

Saulo optou, em 1972, por destruir a cópia e o negativo de Limite em nitrato, com receio de que eles pudessem provocar um incêndio dentro de sua casa.

Portanto, passamos a considerar o contratipo processado por Saulo em meados dos anos 1960 como aquilo que há de mais próximo do filme realizado por Mário Peixoto em 1930.
Bibliografia

CHERCHI USAI, Paolo. Silent cinema: An introduction. London: British Film Institute, 1999.

COELHO, Maria Fernanda Curado. A experiência brasileira na conservação de acervos audiovisuais: Um estudo de caso./ Dissertação de Mestrado, Escola de Comunicações e Artes/Universidade de São Paulo, São Paulo 2009.

GARCÍA, Alfonso del Amo. Preservación cinematográfica. Bruxelas : Fédération Internationale des Archives du Film, 2004.

MELLO, Saulo Pereira de. Limite. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

SOPER, Jeffrey. Seventy-six years of D-76. http://jeffreysoper.com/node/101 (Acesso em 28 jun. 2012).

Kodak Publication H-24 Module 15. http://motion.kodak.com/motion/uploadedFiles/US_plugins_acrobat_en_motion_support_processing_h2415_h2415.pdf (Acesso em 28 jun. 2012).