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  Título
Trinh T Minh-ha: Em rumo a uma etnografia experimental no cinema
Autor
Gustavo Soranz
Resumo Expandido
Nas últimas décadas o campo da antropologia visual tem consolidado seus métodos e teorias, ainda que siga buscando afirmar seu lugar entre as disciplinas que o originam, a antropologia e o cinema. Diversas são as tendências no campo da antropologia a utilizar o cinema como recurso ou estratégia de descrição do mundo histórico e seus usos tem se intensificado graças a diferentes motivos. Há aqueles que aceitam o uso do filme dentro de limites estreitos e rígidos, buscando uma validação baseada em critérios de cientificidade típicos da antropologia escrita mais tradicional e outros que ampliam o escopo de seu uso para além da ilustração da produção escrita, alargando as fronteiras da disciplina e possibilitando o surgimento de novas estratégias, novas abordagens e novos objetos, em busca de novas compreensões antropológicas de mundos sociais e de experiências culturais.

Nos idos de 1980, MARCUS e CUSHMAN (1982) notaram uma tendência crescente de experimentação na escrita etnográfica, uma espécie de reação filosófica às convenções de realismo que imperavam na antropologia. Isso seria fruto de uma autoconsciência por parte de alguns antropólogos, o que levou a um debate sobre a natureza da interpretação nas descrições etnográficas, destacando-se uma consciência crescente da sua estrutura narrativa e retórica. Para os autores, estamos falando de uma etnografia experimental. Na mesma década da formulação desse conceito, Trinh T. Minh Ha lança seu primeiro filme, Reassemblage – from the firelight to the screen (1982), trabalho em que a cineasta expõe suas reflexões sobre a dificuldade em se construir um discurso sobre o outro e onde apresenta seu conceito de falar ao lado (speaking nearby) ao invés do tradicional falar sobre, típico do filme etnográfico tradicional. O filme tem como objeto o Senegal, um tópico típico da seara de filmes etnográficos, mas radicaliza na sua forma fílmica, frustrando expectativas clássicas sobre o que seria um filme etnográfico tradicional, ampliando a percepção sensorial sobre a realidade social mostrada. Estaríamos diante de um filme etnográfico experimental¿ O conceito de etnografia experimental serviu de base para a análise de filmes experimentais, tomados como etnografias experimentais por RUSSEL (1999), para quem, ao se levar o conceito de etnografia experimental para o campo do cinema, não se pretende criar uma nova categoria de práticas no campo do filme etnográfico, mas sim uma “incursão metodológica da estética na representação cultural, uma colisão da teoria social e da experimentação formal” (p. xi, 1999). Para a autora, a “etnografia” (aspas da autora) se torna um termo expandido onde a cultura é representada de perspectivas diferentes, fragmentadas e mediadas e a aproximação entre o cinema experimental e o filme etnográfico tem efeito de iluminação em ambas as tradições.

Graças a sua atuação diversificada em diferentes frentes, da teoria pós-colonial à produção musical, passando pela teoria feminista e pelo cinema, Trinh T. Minh Ha posiciona-se em um lugar entre campos distintos de conhecimento, o que a coloca como uma intelectual intrigante para pensar diferentes tradições na produção de conhecimento. É desse lugar de fronteira, atravessado por diferentes saberes, que pretendemos olhar a tradição documentária e a reflexão sobre esse gênero cinematográfico, buscando identificar contribuições epistemológicas e teóricas para a prática e a teoria do cinema documentário, em especial um olhar sobre o filme etnográfico como objeto principal de um cinema com interesses nos processos culturais e sociais, motivados por uma obra fílmica e teórica questionadora dos dogmas e das convenções das tradições com as quais dialoga.

Bibliografia

CLIFFORD, James & MARCUS, George (Eds). Writing culture – the poetics and politics of ethnography. University of California Press, 1986.

HOCKINGS, Paul (Ed.) Principles of visual anthropology. 3rd edition. Mouton de Gruyer, 2003.

LOIZOS, Peter. Innovation in ethnographic film: from innocence to self-consciousness – 1955 – 1985. The University of Chicago Press, 1993

MACDOUGALL, David. Novos princípios da antropologia visual. IN: Cadernos de antropologia e imagem. Rio de Janeiro: Contracapa, 2005.

NICHOLS, Bill. The ethnographer´s tale. In: Taylor, Lucien (Ed.). Visualizing Theory: selected essays from VAR 1990-94. Nova York: Routledge, 1994. pp. 60-83.

RUSSEL, Catherine. Experimental ethnography : the work of film in the age of video. Durhan: Duke University Press, 1999.

TRINH, T. Minh-Ha. Outside In Inside Out. IN: PINES, Jim & WILLEMEN, Paul. Questions of third cinema. London: British Film Institute, 1990.

___________. Framer framed. Nova York: Routledge, 1992.