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  Título
Documentários de busca: o engate autoral em primeira pessoa
Autor
Mariana Duccini Junqueira da Silva
Resumo Expandido
Os documentários de busca guardam uma simetria com as produções ensaísticas pela proposição de um dispositivo de contenção do acaso que ao mesmo tempo potencializa o próprio efeito de acaso na inscrição fílmica. Estabelecendo um ponto de partida como projeto pessoal do realizador, a narrativa coincide com o desenvolvimento da busca. Nesse sentido, é possível falar em uma ficção documentária, pela composição dramática estruturante dos filmes: a exemplo da figura do herói, o documentarista-personagem-pessoa lança-se ao desconhecido, almejando como recompensa uma espécie de redenção pela resolução do conflito que o engajou na busca.

Engendrando o foco narrativo em primeira pessoa, o ponto de vista autoral articula uma dinâmica que amalgama três instâncias: a que observa/documenta, a que enfrenta as vicissitudes do projeto a que se autodetermina e a que responde pela espessura biográfica que sustenta uma experiência documentária e uma vivência pessoal.. Uma unidade recomposta que então constrói o lugar de autor intenta um efeito de autenticidade, ao mesmo tempo em que as orientações do enredo reforçam a ênfase circunstancial em cada uma das faces da composição da autoria.

A tarefa redentora não raro tem a ver com a pergunta: quem sou eu, realmente? Tal procura pela identidade se dá a contrapelo de discursos que turvam o próprio resgate identitário: a historiografia oficial, as burocracias institucionais, os temas-tabu, os segredos de família. Os filmes situam-se sob um princípio de incerteza, pois assumem um método experimental, que parte de hipóteses e abre mão de resultados previsíveis, diferentemente do documentário tradicional, em que o avesso do filme não se incorpora à montagem (Bernardet, 2004).

Como tendência, esses documentários apresentam duas filiações principais: aquela em que o projeto é restrito a uma vivência estritamente subjetiva e aquela em que a busca se encontra em algum momento com a historiografia oficial e suscita uma relação polêmica com a história do protagonista, expondo uma necessidade de reescrita, já que essas obras se legitimam como forma de compreensão de processos traumáticos (guerras, totalitarismos, ditaduras) e viabilizam uma possibilidade de ressignificação da memória coletiva.

Propomos assim a análise de Diário de uma busca (2011), de Flavia Castro, e Elena (2012), de Petra Costa. Em Diário, a escritura documentária articula dois patamares de significação: a infância dos filhos de militantes, em certa medida parada no tempo (os planos que remetem a esse tema são fixos, em preto e branco e cobertos por narração em voz over), e a diáspora sem fim dos militantes, figurativizada pela leitura diegética de cartas, em planos coloridos e em movimento. A narrativa que entrelaça os anos de formação dos filhos da ditadura e uma reavaliação da experiência por eles, mais de duas décadas depois, amplifica a ideia de que tais personagens seriam os principais habilitados à construção desse tipo de relato.

Em Elena as regras do dispositivo privilegiam, na construção autoral, tanto a dimensão biográfica quanto a composição da personagem. Como efeito de sentido, Petra Costa (a diretora-autora) recua suavemente para trazer a primeiro plano a experiência de Petra, personagem e ao mesmo tempo sujeito empírico da experiência: o testemunho do suicídio da irmã, Elena. A tarefa do filme é exorcizar a morte de Elena e, ao mesmo tempo, construir em nome dela uma memória impregnada do lirismo que marcou sua curta vida. O exercício ensaístico atribui à experiência outro sentido, com a justaposição de fragmentos heterogêneos em uma enunciação que transfuncionaliza uma parte da realidade em fantasia (Zizek, 2005). Apreendida ficcionalmente, essa realidade, ora ressignificada pela experiência do filme, constitui a singularidade do autor-personagem-pessoa nesses documentários: ultrapassa a dimensão do sujeito empírico, mas passa a existir nele mais do que ele próprio.

Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. 33 traz novos horizontes ao documentário. Folha de S. Paulo, 14/03/04, p. E6.

________. Documentário de busca: 33 e Um passaporte húngaro. In: MOURÃO, Maria Dora e LABAKI, Amir (orgs.). O cinema do real. São Paulo: Cosac Naify, 2005, pp. 142-157.

BREMOND, Claude. Logique du récit. Paris: Le Seuil, 1973.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Images malgré tout. Paris: Éditions de Minuit, 2003.

LINS, Consuelo; REZENDE, Luiz Augusto; FRANÇA, Andréa. A noção de documento e a apropriação de imagens de arquivo no documentário ensaístico contemporâneo. Revista Galáxia. São Paulo: PUC-SP, n. 21, junho de 2011, pp. 54-67.

RANCIÈRE, Jacques. O destino das imagens. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.

SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do Real! – cinco ensaios sobre o 11 de setembro e datas relacionadas. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005.