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  Título
O FESTIVAL CINEFOOT – NOTAS SOBRE O ESPECTADOR DO “CINEMA DE FUTEBOL”
Autor
Tetê Mattos [Maria Teresa Mattos de Moraes]
Resumo Expandido
Nas últimas décadas observamos uma forte tendência de crescimento no número de festivais audiovisuais, tanto no Brasil, quanto no exterior. Uma das características observadas neste fenômeno internacional, diz respeito ao surgimento de inúmeros festivais com perfil segmentado, isto é, festivais que se situam na fronteira entre campos culturais distintos como o cinema e gênero, diversidade sexual, cinema infantil, produção de periferia, questão ambiental, questões ligadas à acessibilidade, cinema e futebol, entre tantos outros.

Criado em 2010, o Cinefoot – Festival de Cinema de Futebol, que tem como objetivo exibir filmes centrados na temática do futebol, vem atraindo um público diferenciado e se legitimando como importante veículo para a difusão de obras audiovisuais de diversas nacionalidades, que abordam o esporte mais popular do Brasil, tratando de temas como os clubes de futebol, Copas do Mundo, jogadores, torcidas, partidas e campeonatos, superações, questões sociais, etc., em suas mais diversas formas narrativas.

A experiência de realização do festival Cinefoot passou a dar visibilidade a uma vasta produção audiovisual com temática do futebol, que até então encontrava praticamente alijada não só dos circuitos comerciais de exibição, como também do circuito independentes representado pelos festivais de cinema, cineclubes e algumas poucas salas de exibição não-comercial.

Ao mesmo tempo em que o festival contribuía para um despertar das obras audiovisuais - que aqui chamarei de “cinema de futebol” - e tornava-se o campo de encontro e de debate do tema cinema e futebol, observou-se a emergência de um público fortemente apaixonado pelo festival, e com forte identificação com as obras exibidas, que por sua vez possuíam diversidade temática e estética.

Pretendemos nesta comunicação apresentar os resultados de uma pesquisa de campo realizada no Cinefoot, onde buscaremos analisar aspectos da prática espectatorial e a sua relação com o “cinema de futebol”.

Partimos do princípio de que os festivais audiovisuais são importantes espaços de encontro entre os espectadores, os artistas e suas obras, na maioria das vezes possibilitam o acesso à obras inéditas, algumas delas restritas a uma única exibição. No caso do Cinefoot, o festival se configura como um local de troca e de interseção cultural entre dois campos: o do esporte/futebol, e o da arte/cinema. Sendo o futebol considerado como “paradigma da identidade nacional” buscaremos compreender os mecanismos de identificação do público e a elaboração de um imaginário a respeito destas obras.

Robert Stam afirma que a “análise da espectatorialidade deve (...) investigar as lacunas e tensões entre os diferentes níveis, as diversas formas por meio das quais o texto, o dispositivo, a história e o discurso constroem o espectador, e as formas como também o espectador, como sujeito-interlocutor, molda esse encontro.” (STAM, 2003, p.257)

Como estratégia de mediação, observamos no festival a adoção de estratégias que remetem a experiência fílmica semelhante à prática de assistir a uma partida de futebol. Há todo um aparato midiático produzido pelo Cinefoot – um hino, um escudo, uma bandeira, uma flâmula, uma taça – que possibilita ao espectador do cinema, um tipo de imersão cultural, semelhante ao estar numa partida de futebol. Em muitas das sessões, os espectadores majoritariamente do sexo masculino, aparecem com bandeiras e vestidos com as camisas de seus clubes, gritam palavras de ordem e portam-se como se estivessem num estádio de futebol. A forma de prazer muitas vezes reside no afeto pelo futebol, na familiarização com as imagens, na rememoração de um passado - temas estes recorrentes em muitas das obras exibidas.

Com todas estas particularidades culturais do festival, buscaremos compreender os modos de leitura dos filmes (observando que em alguns momentos há um estranhamento na linguagem cinematográfica) e o papel do Cinefoot na recepção cinematográfica.

Bibliografia

BAMBA, Mahomed. “O papel dos festivais na recepção e divulgação dos cinemas africanos”. In: MELEIRO, Alessandra (org.) Cinema no mundo: indústria, política e mercado: África. São Paulo: Escrituras, 2007.



GOLDSMITH, Leo. “História, tragédia e farsa: The President’s last bang nos circuitos dos festivais de cinema. In: FRANÇA, Andréa e LOPES, Denilson (orgs.). Cinema, globalização e interculturalidade. Chapecó, SC: Argos, 2010.

MASCARELLO, Fernando. "Notas para uma teoria do espectador nômade". In: Estudos de Cinema - Socine II e III. São Paulo: Annablume, 2000.

MELO, Victor Andrade de, PERES, Fabio de Faria. O esporte vai ao cinema. Rio de Janeiro: Editora do SENAC/RJ, 2005.

Nichols, Bill (1994). “Discovering Form, Inferring Meaning: New Cinemas and the Film Festival Circuit.” Film Quarterly 47:3 (1994): 16–30.

PORTON, Richard (org.). On Film Festival. (Série Dekalog 3) Inglaterra: Wallflower Press, 2009.

STAM, Robert. Introdução a teoria do cinema. Campinas, SP: Papirus, 2003.