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  Título
O narrado e o imaginado no filme Tabu, de Miguel Gomes
Autor
Arthur Fernandes Andrade Lins
Resumo Expandido
Um dos procedimentos fílmicos mais utilizados como forma de materializar o passado é a utilização do flashback acompanhando um relato oral feito por um personagem-narrador inserido no enredo. Porém, mesmo ficando claro que a voz representa a subjetividade do personagem que fala, a imagem que toma conta do filme e que nos leva visualmente ao passado ainda pode ser vista como parte integrante dessa mesma consciência?



O filme ‘Tabu’, de Miguel Gomes, problematiza essa fronteira ao sugerir uma relação mais ambivalente entre a fala do narrador e o possível imaginário da personagem que escuta o relato e que se torna o ponto de identificação com o espectador.



Dividido em duas partes, ‘Paraíso perdido’ e ‘Paraíso’, o filme narra um trágico caso de amor proibido entre Aurora e Gian-Luca Ventura vivido nos anos 60 no monte Tabu, na África. Entre as partes, uma diferença notável reconfigura a relação do espectador com a obra.



Na primeira parte, acompanhamos a velhice e morte de Aurora através de escolhas formais que ecoam em sua estética um cinema contemporâneo de planos longos, fixos, de rarefação narrativa, e que opta em privilegiar uma relação naturalista do cinema com o mundo narrado. Nas situações mostradas na tela, o espectador se adentra no universo de Aurora a partir de sua vizinha Pilar. Algumas informações pouco ordenadas sugerem um passado aventuroso e uma ruptura trágica na vida de Aurora, o que justificaria o seu ressentimento e sua recusa a vida presente, além de uma conturbada relação com sua filha.



Na segunda parte, temos Gian-Luca Ventura narrando para Pilar através de uma voz over a sua aventura romântica e trágica com Aurora no monte Tabu na década de 60. O registro audiovisual sugere um filme mudo acompanhado da narração em over, com elementos narrativos que aproxima o filme do cinema clássico americano que privilegia a ação como forma de sedução do espectador.



Acreditamos que esse imaginário representado na tela sugere uma adesão no fluxo de consciência da personagem ouvinte Pilar a partir dos fatos narrados por Gian-Luca. No início, um prólogo narra uma lenda acontecida na África entre um caçador sofrendo de desilusão amorosa e um crocodilo, e antecipa as escolhas estéticas da segunda parte do filme. A primeira parte começa com Pilar numa sala de cinema assistindo a este mesmo prólogo.



Dessa forma, essa associação entre Pilar espectadora do filme-prólogo e ouvinte da história-narrada, nos impele a investigar a relação que se estabelece na segunda parte do filme entre a narrativa em voz over do personagem-narrador Gian-Luca Ventura e a materialização do imaginário da personagem-ouvinte Pilar a partir do fluxo de sons e imagens que tomam conta da tela.



Para investigar tais procedimentos, teremos como norte os estudos propostos por Gérard Genette, as noções e as implicações teóricas do ponto de vista e fluxo de consciência na linguagem audiovisual, além de pensar o conceito de narrativa oral e suas possíveis potencialidades como forma de suscitar o imaginário do personagem ouvinte no filme.

Bibliografia

GENETTE, Gérard. Discurso da narrativa. Lisboa: Vega, 1995.

REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina. Dicionário de Teoria da Narrativa. São Paulo: Ática, 1988.

BENJAMIM, Walter. O narrador. In: Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1987.

LEITE, Lígia Chiappini Morais. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 1989.

NUNES, Benedito. O tempo na narrativa. São Paulo: Ática, 1988.

BORDWELL, David. Narration in the fiction film. Madison: The University of Wisconsin Press, 1985.

CARVALHO, Alfredo Leme Coelho de Carvalho. In: Foco narrativo e fluxo da consciência. São Paulo: Livraria Pioneira editora, 1981.