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  Título
Os vários regimes do realismo cinematográfico brasileiro
Autor
Simplicio Neto Ramos de Sousa
Resumo Expandido
Nossa proposta consiste em, tendo empreendido um mapeamento das grandes linhas de discussão da “questão realista” no Cinema Brasileiro em nossa pesquisa de Doutorado, apresentarmos esse mapeamento dos momentos e dos diversos regimes de realismo no cinema brasileiro, e de como esse debate se delineou no Brasil, mas do ponto de vista dos cineastas e realizadores, não dos dos criticos ou teóricos. Uma análise das praticas discursivas dos cineastas que, em momentos-chave, estiveram disputando a noção de realismo: em seus discursos, em seus escritos, em seus embates institucionais, e até na formação de seus grupos de amigos e de aliados. A pesquisa nasce de um levantamento feito, da produção teórica ou jornalística (manifestos, entrevistas, textos diversos) de cineastas, ao longo da história do Cinema Brasileiro, onde o debate sobre questão realista se fez presente. Tendo em vista as ideias de Bruno Latour, pretendemos traçar a formação de redes sócio-técnicas, ao pesquisarmos a discussão realista no Cinema Brasileiro. Propomos um esboço de História da Discussão Realista no nosso Cinema, contribuindo para um História das Idéias no campo da Historiografia Brasileira. Tendo em vista que existem vários realismos ao longo do desenvolvimento da técnica e da linguagem do Cinema, discutiremos especificamente porque, na tradição cinematográfica brasileira, em processo herdado do Cinema internacional e até de outros campos artísticos e anteriores à existência deste, o realismo é sempre um discurso de mudança. Onde novas reivindicações de realismo, correspondem na verdade a diferentes modo de produção cinematográfico, que vem tentar se impor frente aos anteriores.

Analisar os modos como as noções em torno do realismo circularam no Brasil é um esforço que visa - mais do que reafirmar ou esclarecer marcos, datações e rótulos, resistindo a periodização da Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro - expor a riqueza e a complexidade de um diálogo, de fato, confuso, mas onde se pode detectar várias questões secundárias, e de forma central uma reivindicação de diferenciados “regimes de imagem”. Para isso nos inspiramos na idéia de diferentes regimes de imagem como pensados por Gilles Deleuze, mas principalmente nos “regimes artísticos” como pensados por Jacques Rancière. Para ele, diferentes regimes artísticos convivem e atravessam os processos históricos, e então, por exemplo, tanto Romantismo quanto o Realismo literário configuram o nascimento de um “regime estético” nas artes ocientais. Este oposto a um “regime representacional”, ao seu ver.

Por fim nos perguntamos – e isto é grande parte da questão sobre como se deu a discussão realista no Cinema do Brasil - aonde e quando esse debate começa e aonde e quando ele se dissolve, se dilui, termina? Qual são as linhas de força que sustentam seus momentos de intensidade e relevância, social, estética e cultural?

Para a nós a questão de onde o debate termina é complexificada pelas discussões sobre o lugar da representação realista no mundo contemporâneo e/ou pós-moderno, conforme a linha de pensamento. Veremos como isso aparece no discurso dos nossos cineastas. Como esse suposto esgotamento ou superação da questão realista é vivido por eles? Estaria o novo cinema de periferia - a produção audiovisual realizada por membros das próprias comunidades de baixa renda que antes eram o objeto privilegiado da representação realista, o “outro-de-classe” -, ligado a um novo contexto de lutas pela consolidação de um novo padrão de verossimilhança cinematográfica, embasada numa nova estrutura econômica de produção audiovisual? Ou já no momento da dita "Retomada", a reação dos cineastas ao debate dos críticos sobre a “cosmética da fome”, mostrou um arrefecimento da reivindicação de realismo por parte dos cineastas?



Bibliografia

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AUERBACH, Erich. Mimesis - a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1998



AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. Campinas: Papirus, 2004.



AVELLAR, José Carlos. A ponte clandestina: teorias de cinema na América Latina. Rio de Janeiro / SP: Ed. 34 / Edusp, 1995.



BERNARDET, Jean-Claude. Historiografia clássica do cinema brasileiro. SP: Annablume, 1995.



GUMBRECHT. Hans Ulrich. Produção de Presença: o que o sentido não consegue transmitir. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2010



LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. São Paulo: Editora 34, 1994



RAMOS, Fernão (org.). História do cinema brasileiro. São Paulo: Art Ed., 1990.

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RANCIERE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Ed. 34, 2005