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  Título
O maior e o menor no cinema de escrita pessoal
Autor
Roberta Veiga
Resumo Expandido
Até quanto uma história de vida menor, doméstica, pode revelar da história de um coletivo, de um tempo? Até onde vai o potencial político de alguns filmes brasileiros contemporâneos instituídos por uma escritura íntima, familiar, autobiográfica? Para se aproximar dessas perguntas, propomos uma análise comparativa de 4 filmes nacionais contemporâneos que operam de alguma forma numa escritura do pessoal: Diário de uma busca, de Flávia Castro; Elena, de Petra Costa; Vento de Valls, de Pablo Lobato e Otto, de Cao Guimarães. A instância comparativa se volta para as formas de relação entre o eu (o subjetivo, o íntimo) e o outro (o mundo, o fora), que o mecanismo de cada filme engendra.

Se vivemos, num mundo onde as fronteiras entre o privado e o público, o íntimo e o ostensível, estão sendo borradas de inúmeras maneiras, e no qual os regimes de visibilidade do espetáculo se alimentam de vidas íntimas, esses filmes se inserem aí de forma transgressora. O aparato cinematográfico não é uma janela indiscreta que revela a intimidade, desnuda um eu real, mas a possibilidade mesma de que uma subjetividade seja construída. É através do aparato, muitas vezes tomado em sua fragilidade, que o trabalho da imagem produz uma biografia que não existe fora dela.

Em Elena, Vento de Valls e Diário..., podemos dizer que há um caráter de (re)invenção do sujeito, uma forma de ação no mundo, que o trabalho do cinema possibilita. Esses filmes apresentam uma processualidade, no qual a escrita autobiográfica - que não se refere a um eu isolado, mas um eu composto com o outro - só é possível por meio de "atos de busca", que podem ser da memória, de reminiscências, de arquivos antigos, de lugares e caminhos, cartografias físicas e mnemônicas, carregadas de rastros de uma história. Tal história não existe esquecida em algum ponto do passado, mas só pode ser construída na ação fílmica de forma porosa e lacunar, no processo que o mecanismo coloca em ato.

Em Diário de uma busca, Flavia enfrenta o seu passado ao buscar desvendar o mistério que encobre a morte de seu pai, um militante de esquerda exilado na Ditadura. Já que o processo do filme é como uma arqueologia, uma volta ao passado, o relato da busca, à maneira de um diário, é o que a mantém no presente da ação para que haja filme. Num movimento que precisa alinhavar tempos, a busca está no gesto de colher e relatar em primeira pessoa, lembranças, depoimentos, registros, ou seja, nos "atos de busca". É aí que ela vai abrigar em seu interior uma outra narrativa biográfica: a do pai. É através dele, uma história maior, de um tempo. Assim como escreve Bernardet sobre Passaporte Húngaro, de Sandra Kogut e 33 de Kiko Gofman, o conjunto que elencamos, em alguma medida, também se exprimem por uma vida pessoal "que se molda conforme as regras de ficção. Ou como uma ficção que se alimenta diretamente da vida pessoal; eu diria ficção que coopta a vida pessoal" (BERNARDET, 2005: 149). Nesse sentido, o traço acontecimental de cada filme irá variar com os arranjos entre a ficção e a realidade que cada filme promove.

Em Otto, as cenas, em sua maioria da esposa de Cao, se inscrevem num presente vivido pelo diretor, que as monta por passagens frouxas entre corpo, movimentos, e pequenas manifestações do mundo, como bolhas de sabão. Aqui a processualidade teria não está na busca, mas no modo como se dá sucessão de mudanças das cenas, que leva o espectador a acompanhar algo que se prolifera e sem prever o fim. Trata-se de um ensaio romântico, cujo gesto ficcionalizante está não apenas na voz off que conta a história, mas na montagem e plasticidade das imagens.

A partir desses apontamentos preliminares, propomos perseguir três eixos analíticos - a natureza processual; o jogo temporal e as formas de ficionalização - na tentativa de perceber que porção da história esses filmes cifram, e em que medida uma escritura pessoal pode resistir à espetacularização e reenviar a subjetividade para um fora.
Bibliografia

BLANCHOT, Maurice. O diário íntimo e a narrativa. In: O livro por vir. Lisboa: Relógio D’água, 1984, p. 193-198.

FELDMAN, Ilana. David Perlov: Epifanias do cotidiano. In: Catálogo da mostra David Perlov: epifanias do cotidiano, São Paulo, Centro da Cultura Judaica, 2011.

BELLOUR, Raymond. Auto-retratos. In: Bellour, R. Entre-imagens: foto, cinema, vídeo. Campinas (SP): Papirus, 1997.

DUBOIS, Philippe. A “foto-autobiografia”: a fotografia como imagem-memória no cinema documental moderno. Imagens, Campinas, n. 4, abr.1995, pp. 64-76.

BERNARDET, Jean-Claude. Documentários de busca: 33 e Passaporte Húngaro. In: Mourão, M.D.; Labaki, A. O cinema do real. São Paulo: Cosac Naify, 2005.

BERNARDET, Jean-Claude. Os catadores e eu. In: Catálogo da mostra Agnès Varda: o movimento perpétuo do olhar, CCBB, ago./set. 2006.

SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.