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  Título
Reconfiguração do conceito de montagem na ficção televisiva expandida
Autor
Letícia X. L. Capanema
Resumo Expandido
O conceito de montagem não é estático, pois possui concepções distintas que variam de acordo com autores e contextos. Num sentido amplo, pode-se definir a montagem como todo o processo que transforma a matéria prima em algo acabado, dotado de poética e sentido. No que diz respeito ao cinema, segundo o Dicionário Teórico e Crítico do Cinema (AUMONT e MARIE, 2003, p. 168), a montagem possui uma definição técnica simples: colar os planos audiovisuais em determinada ordem. Para autores como Jean Mitry (1984) e Arlindo Machado (2011), a montagem é uma prática anterior à introdução efetiva da seqüencialidade dos planos, como ocorre nas trucagens dos filmes de Meliés no fim do século XIX. Assim, a montagem cinematográfica pode assumir funções diversas, resultando em efeitos distintos. Como explica Jacques Aumont e Michel Marie (2003, p. 169), tais efeitos foram privilegiados, cada qual, por determinados cineastas, escolas e vanguardas cinematográficas.



Assim como no cinema, as concepções e os recursos da montagem na televisão também são diversos. Ivana Fechine (2007), por exemplo, apropria-se do conceito de montagem vertical de Eisenstein e considera a contemporânea imagem televisiva como fruto dela. Para a autora, a televisão tem explorado uma espécie de montagem vertical por meio do uso de janelas, letterings e recursos gráficos, ou seja, através da multiplicidade de informações visuais apresentadas simultaneamente. Na ficção televisiva, outros efeitos de montagem, como continuidade entre planos, elipses, flashbacks, prólogos, ganchos e recapitulações são estruturais na composição formal da teledramaturgia.



Neste estudo sobre as narrativas expandidas da ficção televisiva, adota-se a concepção ampla de montagem como o estabelecimento de relações entre elementos (em diversos níveis e meios) que formam uma obra completa.



Para investigar os modos em que se dá a montagem narrativa na ficção televisiva expandida, é observada as relações que a série televisiva Twin Peaks (1990-91) estabelece com suas obras complementares. Criada por David Lynch e Mark Frost, a série é composta por 30 capítulos organizados em duas temporadas, além disso a narrativa de Twin Peaks se expande através de três livros, um áudio livro e um filme. O universo narrativo de Twin Peaks é rico e vasto. Sem dúvida, a série é o centro desse universo e estabelece relações estruturais com outras obras que também compõem a narrativa. Tais relações serão exploradas no artigo completo.



Partindo da teoria da montagem vertical de Eisenstein (caracterizada por explorar o todo dialético do filme, incluindo o som, a composição interna dos quadros, sobreposições, etc), este estudo propõe uma extensão de tal conceito. No sentido de expandir as dimensões da montagem, defende-se a hipótese de que é possível também trabalhar com uma noção de profundidade na montagem expandida. Na esteira deste raciocínio, defende-se a idéia de que a série Twin Peaks explora uma espécie de montagem “de profundidade” ou “transversal”, que seria aquela que explora as relações da montagem interna dos capítulos televisivos (elipses; em campo/fora de campo; flashbacks; etc) com elementos externos, que extrapolam a obra televisual. A montagem “de profundidade” ou “transversal” seria, portanto, caracterizada por uma espécie de “inchaço” da narrativa que transborda elementos diegéticos para fora dos limites do meio principal.



Narrativas expandidas, como Twin Peaks, possibilitam a fruição não linear da história. Apesar da relação de complementaridade, as obras, centrais e periféricas, também funcionam de forma autônoma, isto é, uma não depende necessariamente da outra para ser compreendida. Tal configuração resulta em uma estrutura narrativa em que os espectadores se movem, em busca do enriquecimento de sua experiência com o enredo. De fato há diferenças fundamentais entre as estruturas narrativas que se movem por si só e aquelas em que nós nos movemos.

Bibliografia

AUMONT, Jacques e MARIE, Michel. Dicionário Teórico e Critico do Cinema. Campinas, SP: Papirus. 2003.

EISENSTEIN, Sergei. A forma do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

EISENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

FECHINE, Ivana O Vídeo como um projeto utópico de televisão. In: Made in Brasil: três décadas do vídeo brasileiro, 2007, p. 85-110.

JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2009.

MACHADO, Arlindo. Pré Cinemas e Pós Cinemas. Campinas: papirus, 2011.

MACHADO, Arlindo. Os primórdios do cinema. 1895 – 1926. São Paulo: Festival do Minuto na Escola, 1997.

MACHADO, Arlindo e VELEZ, Marta Lúcia. Questões metodológicas relacionadas com a análise da Televisão. São Paulo: Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação. 2007.

MITRY, Jean. Le montage dans les films de Méliès. In: M. Malthetê – Méliès (org.) Méliès ET La naíssance Du spectacle cinématographique. Paris: Klincksieck, 1984