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  Título
Reminiscências culturais em Terra sonâmbula
Autor
Josette maria alves de souza monzani
Coautor
Daniela Ramos de Lima
Resumo Expandido
Pretende-se abordar os recursos empregados pela roteirista e diretora Teresa Prata no processo de transcriação do filme Terra sonâmbula (2006) a partir do romance homônimo de Mia Couto. Prata realiza inicialmente um trabalho de economia e síntese que consiste em supressões de passagens e de personagens do texto, a fim de concentrar a narrativa na relação familiar estabelecida entre o menino Muidinga e o velho Tuahir, ao longo das agruras da guerra civil, e na contaminação de suas vidas por aquelas dos personagens do diário (Kindzu e Farida, em especial)por eles encontrado; e, em segundo lugar, opta por manter o paralelismo narrativo que vai gerando um produto híbrido, posto que a imaginação de Muidinga vai se encarregando de unir a outra história à que supõe ser a sua. Bem, interessa-nos é o fato de Prata ter percebido a essencia dessas obras de Couto - a apresentação do processo de mestiçagem - e ter tão bem elegido as estratégias para transcriar audiovisualmente a mesma. Assim, tem-se esse efeito através da trilha sonora, que apresenta a mescla de excertos de músicas européias de concerto, com cânticos africanos e música indiana; ao lado da fala que ora faz uso do português, ora do tsango, e dos ruídos de fundo, como os lamentos, tiros e barulho do mar a evocarem o passado e diminuírem distâncias. Tem-se o uso acentuado de cores vibrantes em uma das narrativas, juntamente com a presença de cores claras e opacas na outra; há ainda o contraste entre os dias de sol brilhante e as noites, profundamente escuras. Ao lado desses estratagemas, de fácil utilização, Prata vai fazendo uso do contraponto da oralidade do velho à leitura efetivada pelo menino, oralidade que vem carregada por ensinamentos de longa tradição e cercada por rituais populares, ambos introdutores de uma visão poético-maravilhosa do mundo. A cultura transmitida pelo menino, Muidinga, por sua vez, vai trazendo à tona clássicos da cultura literária, a ex. da Odisséia e de Moby Dick, e vai ampliando o conceito em discussão.

O país mostra-se devastado pela guerra civil, sem ordem, sem leis, sob o império da violência e dos desmandos, com os personagens errando pelos caminhos em busca de sobrevivência. Contudo, a espacialização do filme aponta para uma Natureza em movimento, sonâmbula, indiferente, ou melhor, imbatível frente ao que nela ocorre. Essa é a percepção que dela tem Muidinga e que vai sendo incorporada ao modus narrandi, em um belo trabalho de transcriação artística da direção.

Enfim, pretende-se discutir a formação e a sobrevivência de uma cultura essencialmente mestiça, e o seu papel para o homem, em um filme que pode ser nomeado, antes de tudo, como singelo.

Bibliografia

Cassirer, Ernest. Linguagem, mito e religião. Porto: Rés, 1990.

Ceserani, Remo. O fantástico. Curitiba, PR: UFPR/Eduel, 2006.

Davis, Flora. A comunicação não-verbal. São Paulo: Summus, 1979.

Gadamer, Hans-George. A atualidade do belo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1985.

Pinheiro, Amálio. Aquém da identidade e da oposição. Formas na cultura mestiça. Piracicaba, SP: Unimep, 1995.

Tamaru, Angela H. Descrição e movimento. Imagens descritivas no cinema e na literatura. São Paulo: Scortecci, 2006.