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  Título
Onde estará o brilho verde do Muiraquitã?
Autor
Roberto Jorge Carneiro de Souza Leão
Resumo Expandido
Um filme é um objeto de importância histórica. Sua materialidade precisa ser preservada para que futuras audiências possam ter acesso ao filme da forma como ele foi pensado e desta forma conhecerem importantes capítulos da história cultural do país. A revisão desses filmes pode acontecer em forma de novos lançamentos no circuito exibidor sob a forma espectatorial clássica do cinema em condições de exibição particulares de espaço (salas de exibição) e a partir de uma materialidade específica (a película cinematográfica). Os fundamentos da espectatorialidade do cinema podem ser vistos nas obras de Tom Gunning (cinema de atrações), ou mesmo na obra de Vanessa R. Schwartz (O espectador antes do aparato cinematográfico), e em diversos outros estudos do chamado primeiro cinema do início do séc XX, evocando os conceitos de entretenimento de massa numa experiência que se dá, fundamentalmente, no espaço urbano.

Ao longo do século XX, práticas de consumo de entretenimento migram para o espaço privado, o que permite a eclosão de novas formas como o rádio e a televisão, conforme aponta Raymond Williams. Essas novas práticas de consumo, reconfiguram as formas de ver o filme, que passa a ganhar outros espaços de exibição. Isso se intensifica a partir do surgimento da noção de home video com o Video Cassete Recorder (VCR), na década de 70. Se a princípio a indústria cinematográfica desconfiava desta nova forma de exibição do filme, posteriormente, esta passa a ser encarada como uma importante aliada na ampliação dos lucros dos filmes, além de ampliar o escoamento da produção cinematográfica (Kompare, 2006). Desta forma, o advento do VCR possibilitou um novo modelo de colecionismo de filmes, aproximando suas práticas de consumo a dos LPs.

Com o surgimento do Digital Versatile Disc (DVD), um novo capítulo dessa história passa a ser escrito. Dadas suas características materiais, que permitiam maior capacidade de armazenamento de informação, e também uma forma de navegação dinâmica pelos conteúdos disponíveis no formato de menus (uma experiência em muito semelhante ao tipo de navegação propiciada com o surgimento de uma nova interface gráfica para o usuário do computador, conforme nos escreve Steven Johnson) o DVD possibilitou o filme agregar conteúdos que ampliavam a sua experiência de fruição do filme. Surgem então as Edições Especiais ou de Colecionador. Essas versões mobilizam o público para a compra dessas edições, tornando-o um objeto de renovado valor e interesse para audiências novas ou antigas podendo contar com os mais diversos atrativos, como faixas comentadas e documentários. Esses conteúdos criam uma espécie de pedagogia sobre o filme, mediando a relação do espectador e atuando como estratégias discursivas sobre o filme.

A análise da edição em DVD do filme Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade (parte integrante da coleção Joaquim Pedro de Andrade) é aqui tomado como um exemplo de como as novas tecnologias de reprodução do cinema podem engendrar estratégias discursivas que ajudam a reorganização da memória coletiva sobre um determinado, filme, autor, ou movimento ao qual faz parte. Mais do que apenas um resgate das imagens, podemos analisar nessa edição uma reorganização da memória do cineasta e do movimento cultural (Cinema Novo) ao qual fez parte. Estas estratégias discursivas encontram-se nos extras do DVD.

Este trabalho tem como objetivo analisar o impacto das tecnologias digitais no entendimento da histórica do cinema, conforme propõe Thomas Elsaesser, deixando de lado as antigas dicotomias (velho x novo), mas entendendo a atual conjuntura multimidiática como um modelo arqueológico das mídias, ampliando nosso entendimento sobre as diferentes formas espectatoriais do filme. Esta comunicação é parte da dissertação de mestrado desenvolvida para O Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense, na linha de pesquisa de Políticas e Análises de Imagem e Som.

Bibliografia

BOTLER, Jay David; GRUSIN, Richard. Remediation: understanding new media, Cambridge, MA : MIT Press, 2000.



ELSAESSER, Thomas; The New Film as a media Archeology In: Cinémas : revue d'études cinématographiques / Cinémas: Journal of Film Studies, vol. 14, n° 2-3, 2004, p. 75-

117. http://id.erudit.org/iderudit/026005ar



JOHNSON, Steven. A Cultura da Interface: como o computador trasnforma nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2001.



KOMPARE, Derek. “Publishing Flow: DVD Box sets and the reconception of television”. In: Television & New Media, nº7. 2006. Pp.335 – 360.



SCHWARTZ, Vanessa R. “O espectador cinematográfico antes do aparato do cinema: o gosto do público pela realidade na Paris fim de século”. In: O Cinema e a Invenção da vida moderna, ORG Leo Charne ORG Leo Charney e Vanessa R. Schwartz. São Paulo: Cosac Naify, 2004



WILLIAMS, Raymond. Television: technology and cultural form. Londres: Rouledge, 1990.