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  Título
Do privado ao político: em torno de “Os dias com ele”
Autor
Ilana Feldman
Resumo Expandido
Diante do campo das escritas de si e de seu cruzamento com linguagem cinematográfica, testemunho, memória, crítica do sujeito e da dimensão confessional-testemunhal da cultura, a comunicação tem como horizonte a investigação de modos políticos de enunciação e subjetivação, aqui problematizados pelo documentário brasileiro “Dias com ele” (2012), de Maria Clara Escobar. Nessa obra, as figurações em torno do desencontro entre um pai e uma filha, da disputa de poder pelo filme e da iminência do fracasso – tanto da relação entre pai e filha como do próprio filme – não apenas coexistem como fazem a permanente passagem da identidade à alteridade, do pai ao país, do privado ao político.



Diferentemente de muitos filmes de família e documentários enunciados na primeira pessoa do singular, explicitamente afetivos, derramados e “ao lado” de seus personagens, “Os dias com ele” é dotado de uma coragem: não evita o mal-estar, os desentendimentos e o desencontro, ao mesmo tempo em que assume a incompreensão, a precariedade e a opacidade da linguagem como elementos constitutivos não apenas das relações familiares em jogo, mas, sobretudo, de sua matéria fílmica.



Construído por testemunhos, entrevistas e conversas com o dramaturgo e ensaísta Carlos Henrique Escobar, um ex-membro da luta armada brasileira e há mais de uma década exilado em Portugal, a diretora Maria Clara, filha de Escobar, também incorpora os momentos pré e pós-fílmicos dessas conversas como partes absolutamente constitutivas da cena. Pois são sobretudo nesses momentos, em que a diretora está presente por meio de sua voz, que tanto a cena (a quem pertence o filme?) quanto a vida (qual posições pai e filha ocupam?) estão em disputa. Mas não se trata apenas de uma disputa mesquinha, fruto de vaidades inconfessáveis. As vaidades existem e são explicitadas, mas, como diria Serge Daney (1996), “sendo o cinema uma arte do presente, seus remorsos são desinteressantes”.



Se não se trata então de simplesmente afagar feridas e remorsos narcísicos, a disputa em questão pela cena – e pelo filme – é uma disputa política entre a tarefa individual da narrativa do trauma (os vários traumas em questão) e sua componente coletiva; entre a memória do pai militante, o desconhecimento da filha e a história de um país; entre a extrema necessidade de seu testemunho (como “responsabilidade histórica”) e sua crônica impossibilidade. A disputa é então, sobretudo, entre o espaço da “intimidade”, modernamente considerado mais verdadeiro e autêntico do que o público, e o espaço da “extimidade”: aquele espaço que, sendo tão próprio aos sujeitos, só poderia apresentar-se fora deles, no âmbito da cultura, no âmbito da interação com o outro, no âmbito da exterioridade da linguagem.



Junto a outros filmes que recusam certa febre biográfica contemporânea e operam deslocamentos importantes no campo das retóricas testemunhais e confessionais, “Os dias com ele” trabalha a partir da opacidade do relato, seus incômodos, seus limites, suas fraturas e suas lacunas. Tomando uma contramão bastante crítica, sem deixar de ser sintomática, ao confessional-midiático, a vida da realizadora se revela, ao menos em alguma medida, por meio da relação com um outro que, separado e jamais assimilado, efetua uma mediação incontornável – em uma espécie particular de alterbiografia, ou seja, de biografia ou problematização de si por meio do outro.



Assim, aquilo que inicialmente poderia indicar mera e repisada expressão de uma hipertrofia da subjetividade acompanhada pela inflação do bom e velho testemunho – contexto cultural em que o documentário, liberto dos modelos sociológicos, parece ter a obrigação de restituir aos sujeitos filmados uma singularidade um dia perdida –, é deslocado por meio de um mal estar desconcertante. Trata-se assim de uma beleza terrível e irreconciliada, em que só se pode partilhar uma experiência pelo que há nela de intransferível, incompreensível e, no limite, impossível.

Bibliografia

ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico – dilemas da subjetividade contemporânea. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010.



COMOLLI, Jean-Louis. “Como filmar o inimigo?”. In: Ver e poder: a inocência perdida – cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: UFMG, 2008.



DANEY, Serge. “O travelling de Kapo”. In: Revista de Comunicação e Linguagens, nº23. Lisboa, Edições Cosmos, 1996.



DIDI-HUBERMAN. Images malgré tout. Paris: Les Éditions de Minuit, 2003.



FELDMAN, Ilana. “O êxito do fracasso: notas sobre o documentário brasileiro contemporâneo”. In: BRASIL, André (Org.) Teia 2002 – 2012. Belo Horizonte: Teia, 2012.



SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Cia das Letras, 2003.



SARLO, Beatriz. Tempo passado – cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Cia das Letras, 2007.



SELIGMANN-SILVA, Marcio (Org.). História, memória e literatura: o testemunho na era das catástrofes. Campinas: SP: Unicamp, 2006.