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  Título
Dov’è la verità? - Do Cinéma-Veritè ao Cinéma-Mesonge.
Autor
Flávio Costa Pinto de Brito (Flávio Kactuz)
Resumo Expandido
Dando continuidade ao estudo que realizo sobre o cinema pasoliniano no contexto dos novos cinemas, pretendo através deste trabalho investigar a possível contraposição irônica sugerida por Hervé Joubert-Laurencian e Maurizio Viano numa análise do filme “Comizzi D’amore”, filmado por Pier Paolo Pasolini há exatos 50 anos, como resposta ao filme “Chronique d’un été” de Jean Rouch e Edgar Morin. Apesar dessa histórica relação ser explicitamente indicada pelo diretor nos primeiros minutos através de um diálogo entre Alberto Moravia e Cesare Musatti, podemos não perceber de imediato o que está por trás da “cruzada contra o medo e a ignorância” numa enquete, aparentemente ingênua, sobre a importância da vida sexual, do conceito de normalidade e transgressão, e todos preconceitos e tabus dos italianos no início da década de 1960, antecipando futuros debates e conjugações entre cinema, sexualidade e política que se fará em anos posteriores.

Creio que esta análise pode ser extremamente instigante para se pensar como Pasolini reagiu ao filme francês e traduziu em um estilo próprio que estará presente, sobretudo, em todos seus “Apunti” ("Appunti per un film sull’India", "Appunti per una Orestiade Africane", "Sopraluoghi in Palestina" e "Le mura di Sanaa’a"), construindo complexos quadros antropológicos que escapam de pressupostos da realidade que nos é reapresentada. Sem a pretensão de revelar a “verdade”, mas a incapacidade de revelá-la, quando o próprio autor-entrevistador indaga: “Qual é a Itália verdadeira? Aquela que se vê na minha enquete ou aquela que não se vê?”

Além do diálogo com a obra de Rouch e Morin podemos entrever nesse documentário, como o autor se coloca numa auto-representação através do discurso de seus entrevistados, como podemos pensar a natureza da performance e da encenação neste contexto documentário e como Pasolini reapresenta questões e contradições que estarão presentes em toda a sua cinematografia, como a eterna tensão entre a perenidade de um mundo arcaico e uma pretensa modernidade esvaziada de princípios e valores, desde seu primeiro grande roteiro no filme de Mauro Bolognini, “Giovani Mariti” (1958) até seu último filme, “Salo o le 120 giornate di Sodoma” (1975).

Bibliografia

COSTA, José Manuel; OLIVEIRA, Luís Miguel (Org) Jean Rouch. Lisboa: Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, 2011.

FREIRE, Marcius. Documentário. Ética, estética e formas de representação. São Paulo: Anablume, 2012

JOUBERT-LAURENCIN, Hervé. Pasolini portrait du poète en cineaste. Paris: Cahiers du Cinéma, 1995.

PASOLINI, P. P. PASOLINI, P. P. Per il Cinema. 5ª ed. Milano: Mondadori, 2001

PRÉDAL, René (org) Jean Rouch ou le ciné-plaisir, CinémAction, nº 81,1996

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas Afinal…o que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008

VIANO, Maurizio. A Certain Realism: Making use of Pasolini’s film theory and practice. Los Angeles: University of California Press, 1993

XAVIER, Ismail O Discurso Cinematográfico- A opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 3ª ed. 2005