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  Título
Mulher - trajetória do som do primeiro filme synchronizado da Cinédia.
Autor
Joice Scavone Costa
Resumo Expandido
A partir dos materiais existentes do filme Mulher (1931), de Octávio Gabus Mendes, produzido pela Cinédia, pretendemos pormenorizar a trajetória do som deste primeiro longa-metragem sonorizado da produtora carioca. O título escolhido – pouco lembrado pela historiografia do cinema brasileiro, tanto pelo fracasso de bilheteria em 1931, quanto pela falta de reconhecimento de suas características artísticas (Ganga Bruta, também mal recebido em 1933, acabou consagrado como exemplo da “genialidade” do diretor Humberto Mauro), revelou-se um corpus que suscita, a cada nova experiência com o material, diferentes questões sobre a cinematografia brasileira.

A começar pela própria preservação dos materiais do filme e as intervenções sofridas por ele ao longo dos anos, é a partir da análise de tais documentos, que deflagraram-se as características do seu momento de produção. Período das primeiras experiências de produção industrial no Brasil, o filme Mulher está inserido na fase da implantação do sistema sonoro no Brasil. Caracterizado pela divergência entre os sistemas Vitaphone e Movietone; primeiras exibições de filmes sonoros e a falta de condições de produzi-los.

Além disso, evidenciam-se profissões pouco estudadas do cinema brasileiro: a importância de “profissionais do som” como o maestro Alberto Lazzoli e o técnico de som Luis Seel, além dos próprios músicos. A recepção do filme Mulher suscita, também, a questão da formação do mercado exibidor e distribuidor brasileiros dos primeiros filmes sonoros: por um lado, o número reduzido de cinemas equipados com os equipamentos de reprodução necessários e, por outro, a exigência por parte do público de que os filmes apresentassem diálogos, ruídos e música sincronizados, assim como os talkies.

Essa transformação representa uma associação entre mídias, com o intercâmbio entre a produção cinematográfica, o rádio e a indústria fonográfica. No caso do filme de Gabus Mendes, a gravação dos discos Vitaphone só foi possível graças aos serviços da Fábrica de discos Victor (RCA Victor). As inovações tecnológicas, possibilitadas pela eletricidade, estavam diretamente ligadas ao momento político brasileiro: a decadência das oligarquias cafeeiras e a promoção da modernidade positivista da revolução de Vargas.

Finalmente, a partir do áudio dos discos Vitaphone originais de 1931, e das cópias de duas diferentes versões do filme (uma de 1977 e outra de 2004), foi possível a análise das diferenças entre elas, especificamente no que diz respeito à banda sonora. Foram identificadas características estéticas do acompanhamento sonoro que carregam importantes informações sobre os contextos “históricos” e “artísticos” de cada diferente versão. Pretendemos apresentar os temas escolhidos pelo maestro Alberto Lázzoli para o filme Mulher em 1931, com músicas “clássicas” – composições de Tchaikovsky, Enrico Toselli e Victor Herbert –, em sua maioria, executas por uma orquestra composta por doze músicos. E, posteriormente, as diferenças para a versão de 1977, quando uma nova trilha sonora foi composta pela pianista Carolina Cardoso de Menezes.

A banda sonora do filme de 1977, apesar de manter apenas músicas em associação à imagem, caracteriza a tentativa de “modernização” do filme, ao serem escolhidas músicas “abrasileiradas” para o acompanhamento da consagrada pianista carioca. A diferença entre o repertório escolhido é notável, pois, a nova trilha se aproxima do imaginário do acompanhamento sonoro de filmes silenciosos. Nesta nova versão, valsas melancólicas e tangos são executados ao lado de “choros” e “samba-canções”, característicos da seresta e da cantiga. Para as cenas nos ambientes de classe média-alta, elegantes temas de jazz com harmonia mais “sofisticada”. A restauração de 2004, incorpora a trilha sonora vitaphonizada original de 1931, entretanto com a supressão de algumas faixas dos discos porque a duração do áudio excedia muito a duração da imagem preservada.

Bibliografia

COSTA, Fernando Morais da. "O som no cinema brasileiro". Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

FREIRE, Rafael de Luna. "Truste, músicos e vitrolas: A tentativa de monopólio da Western Electric na chegada do cinema sonoro ao Brasil e seus desdobramentos..." Imagofagia: revista de la associación argentina de estudios de cine y audiovisual, v. 5, p. 9, 2012.

SCHVARZMAN, Sheila . "Entre Cinearte e Cinédia: Octavio Gabus Mendes e Mulher". Estudos de Cinema Socine IV. São Paulo: Panorama, 2003, v. IV, p. 262-271.

GOMES, Paulo Emilio Salles. "Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte". São Paulo:

Perspectiva, 1974.

XAVIER, Ismail. "Sétima arte: um culto moderno". São Paulo: Perspectiva, 1978.