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  Título
Histórias do vento: Lumière, Méliès, Joris Ivens, Claire Denis
Autor
Luiz Carlos Oliveira Junior
Resumo Expandido
É conhecida a história de que Méliès, ao assistir a uma famosa vista de Lumière, ignorou o teatrinho burguês que se desenvolvia no primeiro plano (um casal alimentando seu bebê) e ficou siderado com o que acontecia no fundo da imagem: as folhas das árvores se mexendo ao sabor do vento. Tal interesse pelo “insignificante” é plenamente justificável: mais que o conteúdo “principal” da vista (o almoço do bebê), o vento nas folhas – acontecimento sutil, suplementar, coadjuvante, mas decisivo aos olhos de Méliès – era o aspecto da imagem de Lumière que realmente abria o olhar para uma nova percepção do mundo fenomênico. Embora tenha sido o grande homem de “féerie” do cinema dos primórdios, transportando para a tela todo um repertório de fábulas e espetáculos cênicos populares do século XIX, a primeira reação de Méliès indica que ele reconheceu de imediato no dispositivo cinematográfico não apenas um meio de entretenimento, mas, sobretudo, um instrumento de percepção que intensifica nosso investimento afetivo na realidade.



Méliès demonstrou ainda, através de Lumière, que a sensação ou impressão de movimento no cinema não é simplesmente questão de restituir na projeção o deslocamento aparente dos corpos captados pela câmera. Há algo na imagem cinematográfica que ultrapassa a antiga questão (já encontrada na pintura, na escultura, na fotografia) da figuração ou da apreensão do movimento: há uma pulsação inquieta, uma atividade do próprio espaço, da própria luz, uma vibração generalizada. É a imagem em si que se acha em movimento. Uma granulação perpassa o campo, uma poeira de luz que torna expressivos os micromovimentos do universo, o ar que preenche os intervalos entre os corpos. No cinema, o ar se torna um acontecimento estético.



Alguns filmes demonstram isso com mais ênfase, a exemplo de “O intruso”, de Claire Denis, em que tudo é movimento, pois cada imagem é um “campo libidinal” atravessado por uma misteriosa troca de intensidades. Mesmo no repouso, há movimento – as partículas em agitação, os estremecimentos da terra, a vibração do espaço. A própria intensidade do olhar cria o movimento. O filme apresenta o “espetáculo da mobilidade universal” admirado por Bergson: uma realidade em que não há pontos fixos nos quais se possa repousar o pensamento. Denis abandona a composição planimétrica e a estrutura tectônica do quadro para dar espaço a uma profusão de energias figurativas comparável às pinturas tardias de Turner. Não vemos a forma das coisas, mas coisas em vias de tomar forma. Em muitos momentos, Denis parece querer recuperar os gestos inaugurais de Lumière, reaproximar-se das potências “primitivas” do cinema, entregar-se a um simples exercício do olhar diante do mundo em movimento.



“O intruso” traz em versão latente, subterrânea, a erupção de energias cósmicas que Rossellini, Vittorio De Seta, Victor Sjöström e outros grandes cineastas preferiram mostrar como espetáculo épico. Basta ver, em Griffith, o papel crucial da atmosfera, primeiramente para dar concretude ao mundo filmado e reforçar seu efeito de realidade – é aquele onipresente vento no cabelo de Lillian Gish em “O nascimento de uma nação”–, mas, depois, ganhando a dianteira e se tornando fato dramático, catastrófico, signo visível do furor da natureza (“Way Down East”, “Órfãs da tempestade”), o que Sjöström, em “Vento e areia”, apenas potencializa, seguindo uma tradição artística da Europa do norte (mais precisamente, do romantismo nórdico) em que a natureza aparece menos como fonte de harmonia e bonança do que como força misteriosa e ameaçadora. Cineastas como Sjöström, Mauritz Stiller e Carl Dreyer, todos fascinados pelo vento, deram continuidade a essa tradição. Mas foi Joris Ivens, em filmes como “Pour le Mistral” e “Une histoire de vent”, quem levou mais longe a parceria entre os meios de expressão do cinema e os fenômenos eólicos, inventando uma série de figuras de montagem e de efeitos visuais e sonoros que exploram ao máximo a poética do vento no cinema.

Bibliografia

AUMONT, Jacques. O olho interminável. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.



FOCILLON, Henri. Vie des formes. 9ª ed. Paris: Presses Universitaires de France, 2010.



LYOTARD, Jean-François. Discours, figure. Paris: Klincksieck, 1971.



NANCY, Jean-Luc. L’Évidence du film. Abbas Kiarostami. Bruxelas: Yves Gevaert Éditeur, 2001.



SCHEFER, Jean Louis. Du monde et du mouvement des images. Paris: Éditions Cahiers du Cinéma, 1997.



WARBURG, Aby. Schlangenritual: Ein Reisebericht. Berlim: Wagenbach, 2011.



____________. O Nascimento de Vénus e a Primavera de Sandro Botticelli. Lisboa: KKYM, 2012.



WÖLFFLIN, Heinrich. Conceitos fundamentais da história da arte. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.