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  Título
Violência, massacre e vingança em Carrie De Brian de Palma.
Autor
Diego Paleólogo
Resumo Expandido
O corpo não conhece limites. Tudo explode, vaza – o excesso parece ser a tônica e dinâmica das representações do corpo no cinema de horror. Carrie, de 1976, dirigido por Brian De Palma, opera o corpo como uma espécie de máquina afetiva que entra em colapso. Construindo a cartografia de uma vingança, De Palma fabrica uma das personagens mais celebradas e emblemáticas do cinema de horror contemporâneo. O objetivo desse trabalho é pensar o corpo, as questões de gênero, afetos e excessos em Carrie, pensando também a relevância e permanência de um filme de horror no imaginário contemporâneo. Slavoj Zizek escreve, no prefácio do livro The Plague of Fantasies, que uma atitude inesperada de alguém que conhecemos transforma o familiar em desconhecido, coloca em risco nossa percepção e desorganiza nosso mapa. É esse tipo de movimento que o diretor Brian De Palma realiza em Carrie. A narrativa da estranha menina, dominada por uma mãe fanática e religiosa, cruelmente torturada pelos colegas de classe, atinge o ápice na já clássica cena do massacre do baile, na noite da formatura – Carrie possui telecinésia, a capacidade de mover objetos com a mente. Vítima de uma cruel brincadeira, Carrie percebe que todas as chances já foram dadas e que resta apenas uma coisa a fazer. A multidão destruída, aniquilada (Carrie destrói todos os símbolos de opressão e poder) dialoga com conflitos duplos de um império que caminha, incessante, para a crise. Carrie White é uma crise, uma ruptura: seu corpo carrega as marcas terríveis de diversas violências impressas, pouco a pouco, na sua história – assim como a tela do cinema aceita, passiva, as projeções dos filmes. Trata-se de uma duplicação, um jogo de oposições. A cena final é performática e não se trata apenas de uma vingança: no momento em que a personagem entende o que aconteceu, outro saber emerge: o problema é o ser humano e suas pequenas misérias. De Palma trabalha com jogos imagéticas, revisitando o imaginário gótico. O sangue, nesse filme, possui uma espécie de poder revelador; funciona como um mecanismo de libertação – é através do sangue que Carrie se transforma; ou seja, o sangue em excesso é o óleo que faz a máquina de horror cinemático funcionar. Michel Foucault, em A história da sexualidade, escreve sobre a transição de uma “sociedade do sangue” para uma sociedade do sexo: Carrie é o corpo, a tela na qual essas duas esferas convergem. O cinema passa a ser o lugar lógico do horror, produzindo visibilidade aos corpos imaginários. O espectador procura o choque, o medo, alguma forma de deslocamento da realidade. Consciente da fragilidade do corpo e da suscetibilidade da alma, o homem moderno parte em busca de horrores profundos – e todo o horror emana de nossos próprios corpos. O horror pode se dar através de um estranhamento, de uma sensação de que “algo esta errado”, seja através de corpos repulsivos, práticas desviantes, perversidades psicológicas, o horror implica um deslocamento radical. Em Carrie as monstruosidades encontram-se dissolvidas e disseminadas em todos os campos. Carrie é um “acidente que ainda não aconteceu”. A prática do bullying funciona, nesse cenário, como uma prática encantatória e ritualística. O corpo funciona em movimentos de expansão e contração: o cotidiano, os pequenos erros e descasos, tornam-se lugares de perigo. Os jogos de câmera sublinham esses movimentos. Diferente de diversos filmes de terror do final da década de 70 e início dos anos 80, Carrie é, simultaneamente, monstro e vítima: ela transita de uma esfera para outra até incorporar as duas situações, constituindo um interessante paradoxo. Carrie ( que pode ser pensada como uma estranha costura de corpos), em uma noite, destrói a vida daqueles que a rejeitavam. Quando tudo é despido e quando o mundo torna-se um lugar terrível de rostos girando, rindo e debochando, a única resposta possível é a violência. Em Carrie, os monstros são os outros.
Bibliografia

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