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  Título
O casamento de sons e imagens: o caso de "Drive" (2011)
Autor
Rodrigo Octávio D Azevedo Carreiro
Resumo Expandido
A escuta é uma prática subjetiva. Disciplinas como a psicoacústica têm nos ensinado, há anos, que fatores acústicos, psicológicos, cognitivos, visuais e culturais influenciam o modo como nosso cérebro interpreta os sons percebidos pelos ouvidos. No cinema, é possível afirmar que uma das tarefas da arte do sound design – em particular na fase da mixagem – é controlar a percepção sonora do espectador, para que este compreenda a partir dos sons os significados desejados pelos que fizeram o filme (diretor, sound designer, editor de som, mixador etc.).



Nesta comunicação, pretendemos examinar o modo como uma equipe de pós-produção sonora é capaz de orquestrar a percepção da trilha sonora de um filme, através da construção de um contrato audiovisual estabelecido pelo que Michel Chion (1994, p. 5) chamou de valor agregado. Pretendemos, ainda, discutir a viabilidade de uma metodologia que dê conta do estudo das relações entre as diversas camadas do som de um filme, e destas com a imagem. Como estudo de caso, vamos analisar o som de uma sequência de “Drive” (2011), de Nicolas Winding Refn.



A trama do filme acompanha o cotidiano de um jovem (Ryan Gosling) que aluga sua habilidade como motorista para quadrilhas de ladrões, dirigindo um carro envenenado para bandidos que precisam de alguém rápido ao volante. Na sequência, o motorista aguarda que dois homens encapuzados roubem um depósito de mercadorias. Ele mantem ligados simultaneamente o rádio do carro (sintonizado em uma partida de basquete) e um walkie talkie que acessa a frequência da polícia.



A fuga que se segue mescla arrancadas rápidas, ultrapassagens perigosas e curvas fechadas com pneus cantando (momentos tradicionais do blockbuster de ação) e cenas incomuns para o gênero fílmico: em alguns momentos, o motorista desliga o carro e apaga as luzes, pedindo silêncio; esconde o veículo sob um viaduto, de novo em silêncio; e conclui a fuga misturando-se à multidão que deixa o estacionamento do ginásio onde ocorria a partida de basquete mencionada.



O uso do som nesta sequência chama a atenção por três motivos:



(1) a mixagem cuidadosa das três camadas de vozes (diálogos, rádio do carro e rádio da polícia), que se alternam no primeiro plano sonoro sem que qualquer personagem ou evento da diegese interfira na relação de prevalência entre elas;



(2) a natureza abundante dos efeitos sonoros, em especial os ruídos provenientes dos automóveis (motores, freadas, trocas de marcha, sirenes da polícia);



(3) o uso incessante de música ao longo de toda a sequência (um score eletrônico composto por Clint Martinez, caracterizado por um longo ostinato que lembra o tique-taque de um relógio).



O que nos chama a atenção para a mixagem desta sequência é, além da grande quantidade de sons, a maneira sutil como estes foram organizados, tanto em espacialidade (distribuição nos seis canais de projeção sonora) quanto em equalização (o controle das frequências se mostra fundamental para evitar, por exemplo, o mascaramento das três camadas de vozes).



Para estudar a construção sonora desta sequência, proporemos o uso de uma variação da metodologia proposta por Rick Altman, McGraw Jones e Sandra Tatroe (2000). O método original sugere a construção de um gráfico que subdivide a trilha de áudio do filme em três camadas (vozes, ruídos, música) e atribui notas de 0 a 7 para cada o nível de volume de cada camada sonora. Essa atribuição é feita a cada intervalo de dois segundos. Os autores incluem uma descrição do plano visual correspondente a cada intervalo.



Variações desta metodologia podem ser encontradas em outros estudos das relações entre imagens e sons, como em Opolski (2013) e Buhler, Neumeyer e Deemer (2010).



Em nossa análise, pretendemos subdividir a trilha sonora em cinco camadas (música, ruídos, diálogos, rádio do carro e rádio da polícia), atribuir um valor de 1 a 5 para destacar a intensidade sonora de cada camada sonora, e atualizar este valor a cada intervalo de 10 segundos.
Bibliografia

ALTMAN, Rick; JONES, McGraw; TATROE, Sandra. Inventing the soundtrack: Hollywood's multiplane sound system. BUHLER, James; FLINN, Caryl; NEWMEYER, David (orgs). Music and cinema. Hanover: University of New England Press, 2000.

BUHLER, James; NEUMEYER, David; DEEMER, Rob. Hearing the movies: music and sound in film history. Oxford: Oxford University Press, 2009.

CHION, Michel. Audio-vision: sound on screen. New York: Columbia University Press, 1994.

OPOLSKI, Débora. Introdução ao desenho de som. João Pessoa: Editora Universitária UFPB, 2013.