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  Título
Godard e o eterno retorno da música da morte
Autor
Luíza Beatriz Amorim Melo Alvim
Resumo Expandido
Em vários de seus filmes, o cineasta Jean-Luc Godard fez uso de música do repertório clássico preexistente. Gorbman (2007) associa essa característica a um procedimento autoral. Ao mesmo tempo, tais trechos funcionam, dentro do intrincado sistema de citações do diretor, como uma referência a algo presente no mundo e, portanto, citável. Mais ainda, o retorno do mesmo trecho de um filme a outro evoca uma rede intertextual de significados, tal como a associação à morte que assumem o Concerto para clarineta K622 de Mozart e a Sonata para piano op. 14 n.1 de Beethoven.

O início do Concerto para clarineta foi utilizado em Acossado (1960) e em Masculino-Feminino (1966). Em Acossado, é ouvido no final do filme quando a personagem Patricia o coloca para tocar na vitrola e, diferentemente do que acontecera até então, seu namorado, o assaltante Michel, não se incomoda com tal repertório, afirmando ter sido seu pai clarinetista.

Godard disse que incluiu a peça nesta sequência próxima ao fim do filme e à morte de Michel, pois acreditava, erroneamente, ser esta a última obra de Mozart (in: BABY, 1960). Em outro texto, o diretor fez menção ao “som mortal da clarineta em Mozart” (GODARD, 1965), embora a tonalidade de lá maior e características do tema não pareçam denotar esse sentido. De todo modo, na manhã seguinte, Patricia denuncia Michel à polícia, o que leva à morte do protagonista.

Em Masculino feminino (1966), o concerto é retomado e, apesar de estar em circunstâncias menos trágicas que em Acossado, também ocorre a morte do protagonista Paul no final do filme (embora não seja mostrada; é somente relatada).

O trecho do concerto é ouvido, agora de forma extradiegética, no meio do filme, após Paul se lamentar ao amigo Robert sobre a dificuldade de se relacionar com Madeleine. Numa jogo de palavras de cunho sexual, reparam que, em masculin, há “cul” e, em féminin, não há nada. Ouvimos, então, a música sobre o rosto paralisado de Paul. A amargura também está no sentido dos intertítulos que aparecem a seguir, uma citação de Pour Lucrèce, de Jean Giraudoux, peça sobre a famosa personagem da Antiguidade que se suicida após ser estuprada.

O diálogo que antecede a música é uma referência ao sexo, mas traz também a ideia da morte (lembremos que orgasmo, em francês, é la petite mort). Porém, Paul e Robert estão errados: no final do filme, Godard nos mostra que, em féminin, retirando-se a parte do meio da palavra, ficamos com o termo “fin”, numa referência à mulher como o fim (e, no último plano do filme, vemos Madeleine na polícia depondo sobre a morte de Paul).

A referência à morte em momentos de música também está em O demônio das onze horas (1965). Durante a fuga dos dois protagonistas para o sul da França, Ferdinand (o mesmo Jean-Paul Belmondo de Acossado) diz que começa “a sentir o cheiro de morte”. A seguir, liga o rádio e ouvimos o concerto La tempesta di mare, de Vivaldi, enquanto, ironicamente, o carro cai troca de tiros que mata Marianne (Anna Karina), Ferdinand se suicida e, nos créditos finais, ouvimos a coda do primeiro movimento da Sonata para piano op.14 n.1 de Beethoven, marcada pela ambiguidade dos modos maior e menor (o que é reputado produzir efeitos de alegria e tristeza, respectivamente), num filme em que o cheiro de morte e a tortura se dão numa França ensolarada.

Este mesmo trecho é retomado diversas vezes em Made in USA (1966), filme que já começa com um assassinato – sem nenhum peso dramático, como se fosse algo corriqueiro - e que tem, como protagonista, a mesma Anna Karina.

Sobre a repetição, Deleuze (1968) afirma que seu princípio não é o do Mesmo, mas sim o do Outro, que compreende a diferença. É como o eterno retorno de Nietzsche (1992), um movimento vertiginoso que faz Dionísio voltar sempre como herói da tragédia grega, travestido em diferentes personagens. É como as frases de Mozart e Beethoven, máscaras da morte em diferentes filmes de Godard.
Bibliografia

AUMONT, J. Lumière de la musique. Cahiers du cinéma, n.437, nov. 1990.

BABY, Y. “Mon film est un documentaire sur Jean Seberg et J.P. Belmondo”. Le monde, 18 mars 1960.

BAECQUE, A. Godard: biographie. Paris: Grasset, 2010.

DELEUZE, G. Différence et répétition. Paris: Presses Universitaires de France, 1968.

GODARD, J.L. Pierrot mon ami. Cahiers du Cinéma, n.171, oct. 1965.

GORBMAN, C. Auteur music. In: GOLDMARK, D., KRAMER, L., LEPPERT, R (org.). Beyond the soundtrack: representing music in cinema. Los Angeles: University of California Press, 2007.

MARIE, M. Comprendre Godard: travelling avant sur A bout de souffle et Le mépris. Paris: Armand Colin, 2006.

NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

SERRUT, L.A. Jean-Luc Godard, cinéaste acousticien. Paris: L´Harmattan, 2011.

STENZL, J. Jean-Luc Godard - musicien: Die Musik in den Filmen von Jean-Luc Godard. München: ET + K, 2010.