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  Título
Prazer visual e estética: o modo poético no documentário paraibano
Autor
Bertrand de Souza Lira
Resumo Expandido
O modo poético, dentre os modos de abordagem do real identificados por Bill Nichols (2005), é o menos explorado na produção documental de longa-metragem como forma dominante na estruturação de uma obra, aparecendo com mais frequência em cenas isoladas. O documentário poético tem sua gênese a partir dos empreendimentos radicais de experimentação da linguagem cinematográfica no contexto das vanguardas europeias do século XX cujas proposições estéticas, sobretudo no campo das artes plásticas, vão irrigar de forma vigorosa o fazer cinematográfico a partir dos anos 20. Temos em Berlim, sinfonia da metrópole (Walter Ruttmann, 1927) e em A chuva (Joris Ivens, 1929) dois filmes emblemáticos dessa abordagem do real. Os documentários poéticos fazem uso expressivo das imagens capturadas do real, enfatizando sua dimensão plástica, padrões de forma e cor, trabalhando mais afetos e impressões do que uma retórica ou narrativa sobre o mundo histórico.

Nossa proposta é analisar os procedimentos estilísticos dos documentários poéticos e “não narrativos” de curta-metragem realizados na Paraíba cotejando-os com outros modos de representação do real dominante nessa produção cuja tônica, historicamente, tem sido o relato narrativo de histórias. A tradição documental paraibana, construída a partir do seminal Aruanda (Linduarte Noronha, 1960) tem início nos anos 60 e continua nas décadas seguintes com Vladimir Carvalho, Rucker Vieira, João Ramiro Mello e Ipojuca Pontes, entre outros. Nas décadas de 60 e 70, as estratégias de abordagem empregadas no documentário paraibano eram unicamente do tipo expositiva, ou, como prefere Ramos (2008), “ética educativa”, quando na sua organização domina uma retórica argumentativa com voz over que constrói uma narrativa preponderantemente verbal à qual as imagens vem corroborar.

Só no final do anos 70, é que teremos uma incursão no modo participativo, uma das vertentes do cinema direto, com A pedra da riqueza (Vladimir Carvalho, 1975), ainda sem o som sincrônico, e com O que eu conto do Sertão é isso (Umbelino Brasil e Romero Azevedo, 1979) quando as falas dos personagens e os ruídos ambientes são sincronizados com as imagens pela primeira vez num produção paraibana. Na década seguinte, a estilística do cinema direto domina os documentários realizados no estado, fenômeno que se deve ao intercâmbio entre a Universidade Federal da Paraíba e o Centre de Formation au Cinéma Direct em Paris (idealizado por Jean Rouch) e com a criação, em 1979, do Núcleo de documentação cinematográfica (Nudoc) da UFPB.

Essa aproximação das artes plásticas com o cinema forjou o conceito de fotogenia que logo passou da fotografia para a imagem em movimento e, desde os anos 20, na pauta dos cineastas da vanguarda francesa como Delluc e Epstein (Aumont, 1993). Como a pintura, a fotografia e o cinema dão ensejo à organização das suas imagens valorizando elementos plásticos, como forma, composição, contraste, luminosidade, matizes de branco e cinza (e posteriormente a cor) etc., se distanciando da mimese do real para se aproximar de imagens mais abstratas, num modo poético de representação do mundo concreto.

Na produção documental paraibana, o documentário poético está presente de forma dominante em uma série de curtas-metragens de Elisa Cabral sobre os ritmos de ofícios milenares: Entre marés, Rítmicas, Cânticos do fogo (2000), Tons de argila (2001), Com passos de moenda (2002), Cânticos da Terra (2003), Entretecidas e Sementes do Sol (2005). E nos curtas de Torquato Joel À margem da luz (1996), Passadouro (1999), Transubstancial (2003), Gravidade (2006), Transmutação (2013) e de recentes produções de outros realizadores que enveredaram por essa estética, a exemplo de Ramon Batista (Fogo Pagô, 2012; Capela, 2014). Esses filmes têm em comum uma proposta “não narrativa” e extraem do mundo histórico sua matéria-prima e organizam imagens e sons explorando sua plasticidade e efeitos para provocar um prazer visual, e auditivo, no espectador.
Bibliografia

AUMONT, Jacques. A imagem. Campina, São Paulo: Papirus, 1993.

GAUDREAULT, André e JOST, François. A narrativa cinematográfica. Brasília: editora Universidade de Brasília, 2009.

GERVAISEAU, Henri Arraes. O abrigo do tempo: abordagens cinematográficas da passagem do tempo. São Paulo: Alameda, 2012.

GAUTHIER, Guy. O documentário: um outro cinema. Campinas, SP: Papirus, 2011.

LABAKI, Amir (2006). Introdução ao documentário brasileiro. São Paulo: Francis.

LINS, Consuelo e MESQUITA, Cláudia. Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas, SP: Papirus, 2005.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal...o que é mesmo documentário? São Paulo: editora Senac São Paulo, 2008.

TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (org.). Documentário no Brasil: tradição e transformação. São Paulo: Summus, 2004.

_______________. Cinemas “não narrativos”: Experimental e documentário – passagens. São Paulo: Alameda, 2012.